A Primavera Identitária.br
O algoritmo, o Leviatã e o fim do “nós”
Em 2013, o Brasil viveu uma explosão social que parecia anunciar uma nova era.
As ruas foram tomadas sem lideranças claras.
As multidões surgiam organizadas pelas redes sociais.
O celular transformava-se em praça pública.
O brasileiro descobria que podia se encontrar digitalmente antes de se encontrar fisicamente.
Naquele instante, muitos acreditaram que nascia uma democracia mais espontânea, mais horizontal e mais livre.
Parecia o despertar de uma consciência coletiva nacional.
As pessoas ainda falavam “nós”.
Nós brasileiros.
Nós indignados.
Nós conectados.
Mas talvez não tivéssemos percebido que, junto daquela primavera digital, outra força estava silenciosamente nascendo.
Uma força invisível.
Matemática.
Automática.
Algorítmica.
Os algoritmos de relacionamento social começaram a reorganizar a experiência humana.
E aqui talvez esteja um dos pontos mais importantes do nosso tempo.
Os algoritmos não trabalham pela diversidade.
Eles trabalham pela afinidade.
O algoritmo não deseja ampliar o ser humano.
Deseja retê-lo.
Para isso, entrega exatamente aquilo que produz mais reação emocional, mais permanência, mais engajamento e mais identificação imediata.
Ele aproxima semelhantes.
Agrupa iguais.
Fortalece nichos.
Produz pertencimento contínuo.
O algoritmo não procura a totalidade humana.
Procura o agrupamento emocional eficiente.
E talvez tenha sido justamente aí que ocorreu o encontro histórico entre as redes sociais e o identitarismo contemporâneo.
As plataformas digitais descobriram rapidamente que identidades produzem comunidades extremamente estáveis.
Grupos identitários permanecem conectados.
Compartilham emoções comuns.
Protegem linguagens próprias.
Reforçam símbolos internos.
Produzem militância permanente.
São ecossistemas perfeitos para o funcionamento algorítmico.
O algoritmo recompensa o sectarismo porque o sectarismo gera intensidade emocional.
A divergência moderada não viraliza.
A convivência equilibrada não produz engajamento contínuo.
A complexidade humana não é eficiente para a máquina.
O conflito é.
A identidade rígida é.
A polarização é.
E assim, pouco a pouco, a lógica algorítmica passou a estimular indiretamente a fragmentação da sociedade.
Não necessariamente por conspiração centralizada.
Mas por funcionamento estrutural.
O sistema aprende aquilo que mantém as pessoas presas à tela.
E poucas coisas mantêm mais atenção do que pertencimento tribal.
Talvez por isso o Brasil tenha sofrido um impacto tão profundo.
Porque o país possuía exatamente a característica oposta.
O Brasil foi historicamente construído como civilização de mistura.
Nossa cultura nasceu da fusão.
Da miscigenação.
Da acomodação cultural.
Da absorção simbólica.
Da convivência imperfeita.
Aqui, tudo se abrasileirava.
O estrangeiro era absorvido.
As religiões se misturavam.
A música se fundia.
As linguagens se dissolviam em uma cultura maior.
O Brasil sempre foi mais fusão do que separação.
Mas a lógica algorítmica não suporta fusão.
Ela precisa de classificação.
Precisa de grupos definidos.
Precisa de fronteiras emocionais claras.
Precisa de identidades estáveis.
O que durante séculos foi obra espontânea do destino cultural brasileiro — a miscigenação e a mistura — começou lentamente a ser substituído por uma arquitetura digital de separação simbólica.
O brasileiro miscigenado começou a ser reinterpretado em categorias rígidas.
“Nós brasileiros” começou a perder espaço para:
nós e eles.
A antiga sociedade de mistura começou a se reorganizar em tribos emocionais concorrentes.
E talvez tenha surgido aí um novo Leviatã.
Não mais o Leviatã clássico do Estado absoluto descrito por Thomas Hobbes.
Mas um Leviatã algorítmico.
Invisible.
Automático.
Ubíquo.
Silencioso.
Um sistema que reorganiza emoções coletivas em tempo real.
Que conduz fluxos de indignação.
Que aproxima semelhantes.
Que afasta diferentes.
Que transforma identidade em mercado emocional.
E o mais curioso:
muitos ainda acreditam estar exercendo liberdade plena enquanto são lentamente conduzidos por sistemas matemáticos de reforço comportamental.
Talvez a tragédia contemporânea esteja justamente nisso.
O brasileiro acreditou estar encontrando sua voz.
Mas acabou encontrando apenas o reflexo contínuo de sua própria bolha.
E toda bolha precisa de adversários para sobreviver.
Foi assim na Revolução Francesa.
Inicialmente, a guilhotina parecia destinada apenas aos inimigos do povo.
Mas a lógica revolucionária possui dinâmica própria.
Os opostos caem primeiro.
Depois os moderados.
Depois os antigos aliados.
E por fim, a própria revolução começa a devorar seus criadores.
No final, até o rei perdeu a cabeça.
Talvez exista uma lição histórica profunda nisso.
Toda estrutura social organizada exclusivamente pela lógica do conflito tende a ampliar continuamente seus próprios inimigos.
E talvez seja exatamente esse o estágio que começamos a viver agora, quase treze anos depois de 2013.
O Brasil já não é o mesmo.
As relações mudaram.
O diálogo se deteriorou.
A convivência tornou-se mais agressiva.
A política tornou-se emocionalmente permanente.
As identidades tornaram-se trincheiras.
E a sociedade brasileira, historicamente construída sobre mistura e acomodação, passou a viver sob permanente estado de tensão simbólica.
Talvez a primavera digital tenha produzido muito mais do que imaginávamos.
Ela não apenas conectou pessoas.
Ela criou a infraestrutura emocional de uma nova civilização algorítmica.
E talvez ainda estejamos apenas começando a compreender o tamanho do Leviatã que despertamos.

