Durante décadas, a Fundação Ford construiu no Brasil uma presença silenciosa, porém profunda. Instalada oficialmente no país em 1962, em pleno contexto da Guerra Fria, a fundação norte-americana tornou-se uma das mais influentes estruturas privadas internacionais atuando sobre universidades, organizações civis, centros de pesquisa e movimentos sociais brasileiros.
Ao longo do tempo, financiou pesquisas acadêmicas, fortaleceu instituições das ciências sociais, apoiou organizações ligadas aos direitos humanos, movimentos raciais, questões indígenas, gênero, clima e democracia participativa. Atualmente, estima-se que seus investimentos no Brasil movimentem algo entre dezenas e centenas de milhões de reais por ano, distribuídos em grants, bolsas e financiamentos institucionais voltados principalmente para pautas de “justiça social”, “justiça racial” e combate às chamadas “desigualdades estruturais”.
A Fundação Ford afirma agir em nome da inclusão, da equidade e da ampliação de direitos. Em sua visão institucional, sociedades historicamente desiguais necessitam de mecanismos ativos de correção, reorganização e fortalecimento de grupos considerados vulneráveis. O conceito central que sustenta sua atuação é o de que desigualdades não são apenas econômicas, mas também culturais, raciais e estruturais.
Mas talvez exista aqui uma pergunta maior, mais profunda e genuinamente brasileira.
Até que ponto um povo necessita de intervenções externas permanentes para reorganizar sua própria vida social?
O Brasil não nasceu de uma pureza racial. Nasceu exatamente do contrário. Nossa experiência histórica foi construída sobre mistura, absorção, convivência ambígua, adaptação cultural e miscigenação intensa. Somos talvez uma das civilizações mais mestiças do planeta. Nossa música, nossa culinária, nossa linguagem, nossa religiosidade e nossa forma de convivência são produtos dessa mistura contínua e imperfeita que acabou se tornando nossa maior singularidade.
Durante séculos, convivemos com desigualdades reais, muitas vezes duras e injustas, mas também desenvolvemos mecanismos próprios de integração social, mobilidade e convivência cultural que não se encaixam perfeitamente nos modelos importados de conflito racial vindos do mundo anglo-saxão.
O problema talvez não esteja no combate à pobreza ou na ampliação de oportunidades. Isso é legítimo e necessário. O questionamento surge quando conceitos externos passam a reorganizar a percepção que um povo possui de si mesmo.
A visão identitária importada transformou gradualmente nossa experiência mestiça em uma lógica de separações permanentes. O brasileiro, antes percebido como fruto de mistura e convivência, passou a ser convidado a se enxergar como integrante fixo de categorias raciais, culturais e ideológicas rigidamente organizadas. O que antes era fluxo tornou-se classificação. O que antes era convivência contraditória tornou-se disputa permanente de identidade.
Talvez este seja o grande dilema contemporâneo brasileiro.
Precisamos realmente de uma engenharia social internacionalizada para nos ensinar quem somos?
Ou necessitamos muito mais de investimento produtivo, infraestrutura, educação técnica, empreendedorismo e liberdade econômica para nosso pequeno produtor, nosso comerciante, nosso trabalhador informal, nosso técnico, nosso jovem sedento por produzir, vender, construir e prosperar?
O pequeno empreendedor brasileiro não deseja viver eternamente em assembleias identitárias. Ele deseja abrir seu negócio, vender seu serviço, construir sua oficina, desenvolver sua capacidade, crescer, empregar e conquistar dignidade através do próprio esforço.
Talvez o Brasil precise menos de conceitos fordistas e mais de confiança em sua própria natureza civilizacional.
Porque apesar de todos os nossos problemas, somos um povo extraordinariamente pacífico para o tamanho de nossa diversidade. Um povo que transformou miscigenação em cultura, convivência em linguagem comum e diferença em experiência compartilhada.
Nossa força talvez nunca tenha estado na pureza das ideias importadas, mas exatamente na capacidade brasileira de dissolvê-las, misturá-las e transformá-las em algo próprio, tropical, imperfeito e profundamente humano.
Pesquisa realizada na internet, por Jose Orlando Witzler.

