A coroa que caiu no chão
Quem será o agente de seu resgate? E quando?
Há uma frase atribuída a Napoleão Bonaparte que atravessou dois séculos porque diz muito mais sobre o poder do que sobre uma coroa:
“Encontrei a coroa da França no chão; eu a apanhei.”
Não importa aqui a coroa como objeto.
Importa o chão.
Uma coroa somente pode ser encontrada no chão porque, antes, alguém deixou de sustentá-la. Uma instituição enfraqueceu. Uma autoridade perdeu sua capacidade de comandar. Uma sociedade deixou de reconhecer suficientemente aqueles que ocupavam o lugar do poder.
Napoleão percebeu o vazio.
E ocupou-o.
Quase um século depois, do outro lado do Atlântico, podemos observar uma imagem inversa.
D. Pedro II não encontrou uma coroa no chão. Recebeu-a ainda menino e carregou-a durante quase meio século.
Quando chegou novembro de 1889, porém, aquela coroa já pesava de outra maneira.
O Império havia perdido apoios importantes. Parte dos militares estava descontente. As antigas estruturas políticas mostravam sinais de desgaste. A questão sucessória provocava incertezas. A abolição da escravidão, necessária e historicamente decisiva, também havia rompido antigas alianças econômicas do regime.
Então chegou o dia 15 de novembro.
Diante do movimento que derrubaria a Monarquia, Pedro II decidiu não promover uma resistência armada.
Podemos interpretar essa decisão como grandeza. Um imperador idoso recusando-se a derramar sangue brasileiro para conservar sua própria Coroa.
Mas podemos igualmente fazer outra leitura.
Talvez naquele momento a coroa brasileira tenha simplesmente caído no chão.
E ninguém se abaixou para recolhê-la.
A República ocupou imediatamente aquele espaço.
Não pretendo discutir aqui se deveríamos ter continuado monarquistas ou se a República representava o caminho inevitável da História. Essa discussão nos levaria para outro lugar.
O que me interessa é o fenômeno do vazio.
Porque o poder parece ter horror ao vazio.
Quando uma instituição deixa de exercer plenamente sua função, outra força começa a ocupar seu espaço.
Quando a autoridade perde legitimidade, surge alguém prometendo restaurá-la.
Quando as instituições deixam de oferecer respostas, aparecem movimentos oferecendo respostas simples.
Quando os representantes deixam de representar, alguém começa a falar diretamente em nome dos representados.
A coroa volta ao chão.
Mas onde estaria essa coroa hoje?
Certamente não no Palácio Imperial.
Nem estou falando da restauração da Monarquia.
A coroa de nosso tempo é outra.
Ela é a confiança.
É a legitimidade.
É a capacidade de fazer uma sociedade acreditar novamente que existe algum destino compartilhado.
Durante muito tempo imaginamos que essa coroa pertencesse necessariamente aos governos.
Hoje isso já não parece tão evidente.
Estados continuam poderosos. Governos continuam arrecadando impostos, produzindo leis, mantendo forças armadas e administrando territórios.
Mas uma parcela crescente da vida humana atravessa fronteiras que os governos não conseguem controlar completamente.
Informação atravessa fronteiras.
Dinheiro atravessa fronteiras.
Tecnologia atravessa fronteiras.
Empresas atravessam fronteiras.
Ideias atravessam fronteiras.
Redes sociais atravessam fronteiras.
Até nossa identidade começa a possuir uma dimensão que já não cabe inteiramente dentro do território onde nascemos.
A velha coroa da soberania continua sobre a mesa.
Mas parece cada vez mais pesada.
E surge então a pergunta que considero mais interessante:
Quem será o agente de resgate dessa coroa?
Um novo líder?
Um movimento político?
Uma geração?
As empresas tecnológicas?
As redes digitais?
Uma inteligência artificial?
Uma nova organização internacional?
Ou milhões de indivíduos conectados, capazes de formar alguma espécie de inteligência coletiva?
Não sabemos.
Mas existe ainda outra possibilidade.
Pode ser que estejamos fazendo a pergunta errada.
Durante milhares de anos procuramos alguém para colocar a coroa sobre a cabeça.
O faraó.
O imperador.
O rei.
O presidente.
O partido.
O Estado.
Sempre imaginamos o poder verticalmente.
Alguém acima.
Os demais abaixo.
Mas a sociedade conectada começa a apresentar uma arquitetura diferente.
Ela funciona em rede.
Cada pessoa tornou-se simultaneamente receptora e transmissora de informação. Cada indivíduo carrega no bolso uma capacidade de comunicação que antigos imperadores não possuíam em seus palácios.
Bilhões de consciências começaram a conversar entre si.
Nunca aconteceu algo semelhante nesta escala.
E então surge uma hipótese inquietante.
E se o próximo agente a recolher a coroa não for uma pessoa?
Talvez seja uma rede.
Uma inteligência coletiva.
Uma nova arquitetura social que ainda estamos aprendendo a construir.
Nesse cenário, a coroa não seria colocada novamente sobre uma única cabeça.
Ela seria distribuída.
E isso altera profundamente a responsabilidade de cada participante.
Porque é relativamente confortável viver sob uma coroa.
Podemos elogiar quem a usa.
Podemos culpá-lo.
Podemos derrubá-lo.
Podemos substituí-lo.
Muito mais difícil é descobrir que carregamos uma pequena parte dela.
Napoleão encontrou a coroa da França no chão e a colocou sobre sua própria cabeça.
Pedro II tinha a coroa brasileira sobre a cabeça e decidiu não lutar para conservá-la.
Entre essas duas imagens existem quase todas as perguntas sobre o poder.
Mas nosso século acrescentou uma terceira.
A coroa novamente parece estar no chão.
Desta vez, porém, bilhões de pessoas estão olhando para ela.
Alguns querem recolhê-la.
Outros querem destruí-la.
Outros nem perceberam que ela caiu.
E outros começam a desconfiar de que talvez não exista mais uma cabeça suficientemente grande para usá-la sozinha.
Resta saber quem se abaixará primeiro.
E, principalmente, quando perceberemos que esse movimento já pode ter começado.

