quarta-feira, 19 agosto 26

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Esta terra já tem dono

Esta terra já tem dono

Há alguns anos li um relato atribuído a um povo indígena que nunca mais saiu da minha memória.

Conta-se que, quando os espanhóis chegaram a uma determinada região da América do Sul, anunciaram aos habitantes locais:

Estas terras agora são nossas. Acabamos de descobri-las.

A resposta do velho indígena foi tão simples quanto desconcertante.

Ele olhou para aqueles homens e perguntou:

Quem lhes deu essa posse?

Houve silêncio.

Então continuou:

Esta terra já tem dono. Mas também não é nossa. Nós apenas vivemos nela, cuidamos dela e dela retiramos o necessário para viver. Quem a criou é o seu verdadeiro dono.

Não sei se o diálogo ocorreu exatamente dessa forma. Histórias antigas costumam atravessar o tempo misturando fatos e símbolos. Mas, verdadeira ou não em seus detalhes, ela revela uma verdade muito maior do que a própria narrativa.

Existem duas maneiras completamente diferentes de olhar para o mundo.

A primeira pergunta:

“O que é meu?”

A segunda pergunta:

“De quem sou responsável?”

Durante séculos, a humanidade construiu sua ideia de progresso sobre o direito de possuir. Descobrimos terras, registramos propriedades, cercamos campos, levantamos muros, acumulamos riquezas e passamos a acreditar que o documento de posse era suficiente para transformar um bem em propriedade definitiva.

Mas há uma pergunta que nenhum registro consegue responder:

Quem criou aquilo que chamamos de nosso?

Nenhum homem criou um rio.

Nenhum homem criou uma montanha.

Nenhum homem criou uma floresta.

Nenhum homem criou a própria vida.

Transformamos, cultivamos, edificamos, organizamos. Somos capazes de acrescentar valor à criação, mas não somos seus autores.

Essa talvez seja uma das maiores ilusões da civilização moderna: confundir o direito de uso com o direito absoluto de propriedade.

A tradição Crista ensina que a terra pertence a Deus e que o ser humano é apenas seu administrador temporário.

Os povos indígenas, cada um à sua maneira, também costumam compreender que a natureza não é um patrimônio a ser conquistado, mas uma realidade à qual pertencemos.

Curiosamente, duas culturas tão diferentes acabam se encontrando na mesma ideia essencial: ninguém é dono da criação.

Talvez seja por isso que a riqueza de uma geração nunca devesse ser medida apenas pelo que ela acumulou, mas principalmente pelo estado em que entregará o mundo à próxima geração.

A pergunta deixa então de ser:

“O que posso fazer com aquilo que é meu?”

E passa lentamente a se transformar em outra:

“Como devo cuidar daquilo que, por um breve instante da história, foi colocado sob minha responsabilidade?”

José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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