Esta terra já tem dono
Há alguns anos li um relato atribuído a um povo indígena que nunca mais saiu da minha memória.
Conta-se que, quando os espanhóis chegaram a uma determinada região da América do Sul, anunciaram aos habitantes locais:
— Estas terras agora são nossas. Acabamos de descobri-las.
A resposta do velho indígena foi tão simples quanto desconcertante.
Ele olhou para aqueles homens e perguntou:
— Quem lhes deu essa posse?
Houve silêncio.
Então continuou:
— Esta terra já tem dono. Mas também não é nossa. Nós apenas vivemos nela, cuidamos dela e dela retiramos o necessário para viver. Quem a criou é o seu verdadeiro dono.
Não sei se o diálogo ocorreu exatamente dessa forma. Histórias antigas costumam atravessar o tempo misturando fatos e símbolos. Mas, verdadeira ou não em seus detalhes, ela revela uma verdade muito maior do que a própria narrativa.
Existem duas maneiras completamente diferentes de olhar para o mundo.
A primeira pergunta:
“O que é meu?”
A segunda pergunta:
“De quem sou responsável?”
Durante séculos, a humanidade construiu sua ideia de progresso sobre o direito de possuir. Descobrimos terras, registramos propriedades, cercamos campos, levantamos muros, acumulamos riquezas e passamos a acreditar que o documento de posse era suficiente para transformar um bem em propriedade definitiva.
Mas há uma pergunta que nenhum registro consegue responder:
Quem criou aquilo que chamamos de nosso?
Nenhum homem criou um rio.
Nenhum homem criou uma montanha.
Nenhum homem criou uma floresta.
Nenhum homem criou a própria vida.
Transformamos, cultivamos, edificamos, organizamos. Somos capazes de acrescentar valor à criação, mas não somos seus autores.
Essa talvez seja uma das maiores ilusões da civilização moderna: confundir o direito de uso com o direito absoluto de propriedade.
A tradição Crista ensina que a terra pertence a Deus e que o ser humano é apenas seu administrador temporário.
Os povos indígenas, cada um à sua maneira, também costumam compreender que a natureza não é um patrimônio a ser conquistado, mas uma realidade à qual pertencemos.
Curiosamente, duas culturas tão diferentes acabam se encontrando na mesma ideia essencial: ninguém é dono da criação.
Talvez seja por isso que a riqueza de uma geração nunca devesse ser medida apenas pelo que ela acumulou, mas principalmente pelo estado em que entregará o mundo à próxima geração.
A pergunta deixa então de ser:
“O que posso fazer com aquilo que é meu?”
E passa lentamente a se transformar em outra:
“Como devo cuidar daquilo que, por um breve instante da história, foi colocado sob minha responsabilidade?”

