quarta-feira, 19 agosto 26

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As infinitas graças das responsabilidades

As infinitas graças das responsabilidades

Há poucos dias recebi uma das notícias mais bonitas que um avô pode receber: a chegada de mais um neto.

A saber Sofia, na sequência já cheguei em nove netos.

Quase sem pensar, pronunciei uma frase que me surpreendeu pela simplicidade:

“São infinitas graças de responsabilidades.”

Somente depois percebi que aquelas palavras carregavam um significado muito maior do que o momento em que nasceram.

Costumamos compreender a graça como um presente, uma dádiva, um privilégio concedido por Deus. E realmente é. Mas talvez exista uma dimensão da graça que nem sempre percebemos: Deus não nos presenteia apenas com direitos; Ele nos presenteia com responsabilidades.

Cada filho que nasce amplia o mundo.

Cada neto que chega estende nossa existência para um tempo que jamais veremos por completo.

É como se a vida dissesse silenciosamente: continue construindo, pois a obra não termina em você.

Foi então que me lembrei de um pensamento da tradição judaica, apresentado por Nilton Bonder, que inverte completamente nossa maneira habitual de pensar a herança:

“Não somos proprietários do futuro; somos seus administradores temporários. Herdamos de nossos descendentes a responsabilidade de lhes entregar um mundo mais rico, mais organizado e mais justo do que aquele que recebemos.”

À primeira vista, a frase parece um paradoxo.

Sempre imaginamos receber uma herança de nossos pais.

A verdadeira herança venha justamente daqueles que ainda nem tiveram oportunidade de escolher. Nossos filhos e nossos netos nos entregam, silenciosamente, uma missão. Eles ainda não podem falar, votar, decidir ou construir. Mesmo assim, já depositam sobre nossos ombros a responsabilidade pelo mundo que encontrarão.

É uma inversão profunda.

Descobrimos que a propriedade é temporária.

O poder é temporário.

O conhecimento é temporário.

A riqueza é temporária.

Até mesmo nossa passagem pela Terra é temporária.

A vida nos é permitida, a famosa terra prometida não se trata de um direito de posse e sim a possibilidade  permitida para uso e cuidado.

Em Genesis, não foi entregue um titulo de propriedade a aquele jovem canal.

A responsabilidade atravessa todas as gerações.

Quanto mais a humanidade evolui, mais essa responsabilidade cresce. A tecnologia amplia nosso alcance, nossas decisões afetam pessoas que nunca conheceremos, e um simples gesto pode produzir consequências que atravessam continentes e décadas.

Cada avanço amplia também a obrigação de compreender, preservar e cuidar.

Talvez seja esse um dos maiores sinais da maturidade humana: perceber que a verdadeira riqueza não está naquilo que conseguimos possuir, mas naquilo que conseguimos entregar.

A graça deixa então de ser apenas aquilo que recebemos.

Ela passa a ser também aquilo que somos chamados a sustentar.

Talvez exista um curioso contraste entre aquilo que chamamos de direitos e aquilo que chamamos de deveres.

Vivemos reivindicando o direito positivo de desfrutar, possuir, consumir e realizar nossos projetos. Entretanto, a vida parece revelar, de maneira muito mais discreta, outra dimensão: o dever silencioso de conservar, proteger, organizar e preparar o caminho para quem ainda virá.

As maiores graças de Deus nunca tenham sido os privilégios que recebemos, mas as responsabilidades que Ele confiou às nossas mãos.

José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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