As infinitas graças das responsabilidades
Há poucos dias recebi uma das notícias mais bonitas que um avô pode receber: a chegada de mais um neto.
A saber Sofia, na sequência já cheguei em nove netos.
Quase sem pensar, pronunciei uma frase que me surpreendeu pela simplicidade:
“São infinitas graças de responsabilidades.”
Somente depois percebi que aquelas palavras carregavam um significado muito maior do que o momento em que nasceram.
Costumamos compreender a graça como um presente, uma dádiva, um privilégio concedido por Deus. E realmente é. Mas talvez exista uma dimensão da graça que nem sempre percebemos: Deus não nos presenteia apenas com direitos; Ele nos presenteia com responsabilidades.
Cada filho que nasce amplia o mundo.
Cada neto que chega estende nossa existência para um tempo que jamais veremos por completo.
É como se a vida dissesse silenciosamente: continue construindo, pois a obra não termina em você.
Foi então que me lembrei de um pensamento da tradição judaica, apresentado por Nilton Bonder, que inverte completamente nossa maneira habitual de pensar a herança:
“Não somos proprietários do futuro; somos seus administradores temporários. Herdamos de nossos descendentes a responsabilidade de lhes entregar um mundo mais rico, mais organizado e mais justo do que aquele que recebemos.”
À primeira vista, a frase parece um paradoxo.
Sempre imaginamos receber uma herança de nossos pais.
A verdadeira herança venha justamente daqueles que ainda nem tiveram oportunidade de escolher. Nossos filhos e nossos netos nos entregam, silenciosamente, uma missão. Eles ainda não podem falar, votar, decidir ou construir. Mesmo assim, já depositam sobre nossos ombros a responsabilidade pelo mundo que encontrarão.
É uma inversão profunda.
Descobrimos que a propriedade é temporária.
O poder é temporário.
O conhecimento é temporário.
A riqueza é temporária.
Até mesmo nossa passagem pela Terra é temporária.
A vida nos é permitida, a famosa terra prometida não se trata de um direito de posse e sim a possibilidade permitida para uso e cuidado.
Em Genesis, não foi entregue um titulo de propriedade a aquele jovem canal.
A responsabilidade atravessa todas as gerações.
Quanto mais a humanidade evolui, mais essa responsabilidade cresce. A tecnologia amplia nosso alcance, nossas decisões afetam pessoas que nunca conheceremos, e um simples gesto pode produzir consequências que atravessam continentes e décadas.
Cada avanço amplia também a obrigação de compreender, preservar e cuidar.
Talvez seja esse um dos maiores sinais da maturidade humana: perceber que a verdadeira riqueza não está naquilo que conseguimos possuir, mas naquilo que conseguimos entregar.
A graça deixa então de ser apenas aquilo que recebemos.
Ela passa a ser também aquilo que somos chamados a sustentar.
Talvez exista um curioso contraste entre aquilo que chamamos de direitos e aquilo que chamamos de deveres.
Vivemos reivindicando o direito positivo de desfrutar, possuir, consumir e realizar nossos projetos. Entretanto, a vida parece revelar, de maneira muito mais discreta, outra dimensão: o dever silencioso de conservar, proteger, organizar e preparar o caminho para quem ainda virá.
As maiores graças de Deus nunca tenham sido os privilégios que recebemos, mas as responsabilidades que Ele confiou às nossas mãos.

