Afinal, o meu néctar
Chego aos 65 anos com uma constatação que levou uma vida inteira para amadurecer.
Durante muitos anos procurei uma definição para aquilo que chamávamos, na empresa, de Qualidade Total. Atuando com engenharia, obras e instalações, percebi que a qualidade nunca esteve apenas na técnica, nem somente no cumprimento do contrato. Aos poucos fui construindo uma definição que passou a orientar meu trabalho:
“Qualidade Total é atender às expectativas do cliente, gerando resultado sem gerar custos . Estabelecendo fluxo e ciclo na velocidade do mercado. Natural e orgânico , com reciprocidade mutua. Na jornada de experiencias do produto ou serviço,”
Na época, eu acreditava que estava definindo um processo empresarial. Hoje percebo que, sem saber, estava tentando descrever um fenômeno muito mais profundo.
Eu estava procurando o meu néctar.
Ao longo da vida encontrei personagens que também habitavam dentro de mim.
Conheci o legalista, que desejava cumprir todas as regras e, muitas vezes, esperava por medalhas invisíveis. Descobri como é fácil acreditar que o esforço nos torna credores do reconhecimento alheio.
Conheci também o servo da parábola de Jesus. Não o servo desprezado, mas aquele que é advertido a vigiar sua própria percepção. O perigo não está em ser útil ao senhor — afinal, ele o é. O perigo nasce quando o servo passa a acreditar que se tornou indispensável ou que o senhor lhe ficou permanentemente devedor por tudo o que realizou.
Essa talvez seja uma das maiores lições da maturidade: nossa utilidade não deve produzir em nós um sentimento de crédito sobre o outro.
Mas havia ainda um terceiro personagem.
O artista.
Aquele que não trabalha apenas porque a lei manda, nem apenas porque o dever exige. Trabalha porque ama o que faz. Porque encontra beleza na execução. Porque deseja entregar ao cliente algo que jamais poderia ser escrito em uma cláusula contratual.
Esse excedente não está na nota fiscal.
Não aparece no orçamento.
Não pode ser exigido.
Mas é justamente ele que permanece na memória.
É ele que faz o cliente voltar.
É ele que constrói reputação.
Hoje compreendo que a verdadeira gorjeta da vida profissional nunca foi um elogio, um prêmio ou uma homenagem. A maior recompensa sempre foi quando um cliente, diante de tantas opções, dizia simplesmente:
— “Chame o José novamente.”
Ali havia confiança.
E confiança não se compra. Não se exige. Não se negocia.
Ela floresce silenciosamente.
Hoje, olhando para trás, percebo que passei por todas essas estações.
Fui o legalista.
Fui o servo que, por vezes, esperou reconhecimento.
Fui também o perfeccionista, muitas vezes paralisado pela busca da genialidade, tentando fugir conscientemente da mediocridade.
Cada uma dessas fases deixou marcas em mim.
Mas, curiosamente, quando o tempo começa a retirar as medalhas, os cargos, os contratos, os títulos e até as certezas, sobra um vazio onde apenas uma coisa permanece materialmente perceptível.
O amor.
Amor pelo trabalho.
Amor pelas pessoas.
Amor pela profissão.
Amor pela obra bem realizada.
Amor pela vida.
Hoje acredito que esse amor é o verdadeiro néctar.
Não o néctar que alimenta o ego, mas aquele que alimenta a confiança.
Não o que busca aplausos, mas o que constrói reputação.
Não o que transforma pessoas em devedoras, mas o que cria relacionamentos duradouros.
Talvez, ao final de uma longa jornada, reputação seja exatamente isso.
É quando deixamos de trabalhar para sermos lembrados e passamos simplesmente a trabalhar por amor.
E, sem perceber, é justamente nesse momento que permanecemos na memória daqueles que cruzaram o nosso caminho.
Jose Orlando Witzler / Avaré / 07_08_26.

