
O século XX foi marcado por grandes narrativas coletivas. Entre elas, poucas tiveram tanto impacto político, filosófico e emocional quanto o marxismo revolucionário surgido após a Revolução Russa de 1917. Durante décadas, a ideia de uma sociedade organizada pela igualdade econômica, pela coletivização e pela superação das classes sociais mobilizou intelectuais, militantes e movimentos em praticamente todo o planeta. O homem era visto como parte de uma estrutura coletiva maior. O indivíduo importava menos que a classe. A luta central era econômica. Trabalhadores contra capital. Proletariado contra burguesia. A promessa era grandiosa: construir uma nova civilização humana.
Mas a história foi impondo suas próprias tensões. Ao longo do século, especialmente sob o modelo soviético consolidado por Vladimir Lenin e depois por Joseph Stalin, começaram a surgir os limites concretos daquela utopia. Autoritarismo, repressão, baixa eficiência econômica, burocracia excessiva e estagnação produtiva corroeram lentamente o encanto revolucionário. A promessa de igualdade universal começou a colidir com a realidade prática dos regimes socialistas.
Enquanto isso, no Ocidente, especialmente entre os anos 1960 e 1970, uma nova transformação silenciosa começava a ocorrer dentro da própria esquerda intelectual. A chamada “Nova Esquerda” deixava gradualmente de concentrar suas energias apenas na economia e passava a olhar para cultura, comportamento e subjetividade. O eixo da luta se deslocava lentamente da fábrica para a identidade. Cresciam os movimentos ligados aos direitos civis, feminismo, sexualidade, raça e crítica cultural. O conflito deixava de ser exclusivamente material para também se tornar simbólico.
Foi nesse ambiente que surgiu, em 1977, um documento hoje frequentemente citado como marco histórico das chamadas “políticas identitárias”: a declaração do Combahee River Collective. O texto introduzia explicitamente a ideia de “identity politics”, defendendo que determinados grupos historicamente marginalizados deveriam construir sua própria representação política a partir de suas experiências específicas de opressão. Curiosamente, essa formulação nasceu ainda dentro de ambientes socialistas e feministas radicais. O identitarismo moderno não surgiu fora da esquerda; nasceu dentro de suas próprias transformações internas.
Então veio 1989. A queda do Queda do Muro de Berlim e, pouco depois, o colapso da União Soviética em 1991 produziram um abalo psicológico profundo no imaginário revolucionário do século XX. A grande narrativa econômica marxista havia perdido sustentação histórica. O sonho coletivo universal parecia ruir diante dos próprios fatos. E talvez tenha sido justamente nesse vazio que novas bandeiras ganharam força.
Sem a centralidade da luta de classes, parte da esquerda intelectual migrou progressivamente para as disputas culturais e identitárias. O foco passou a recair sobre minorias, grupos historicamente oprimidos, questões raciais, sexuais, étnicas e culturais. A política saiu da classe e entrou na subjetividade. Saiu do coletivo econômico e caminhou para o indivíduo e suas identidades particulares. A figura do trabalhador universal foi sendo substituída por múltiplos grupos específicos, cada qual reivindicando reconhecimento, espaço e representação.
Para muitos críticos, especialmente liberais e conservadores, esse processo gerou uma fragmentação contínua da sociedade. A antiga promessa de unidade coletiva teria sido substituída por uma competição permanente entre identidades. Outros, porém, argumentam exatamente o oposto: que grupos historicamente invisíveis finalmente encontraram voz política legítima. O debate permanece aberto, intenso e profundamente emocional.
Mas talvez a grande aceleração desse fenômeno não tenha vindo da política tradicional, e sim da tecnologia.
A partir dos anos 2000, e especialmente após a explosão dos smartphones e das redes sociais entre 2007 e 2012, surge uma nova força organizadora da sociedade: os algoritmos. Plataformas digitais descobriram rapidamente que identidade produz engajamento. E engajamento produz lucro. O ser humano conectado passou então a viver dentro de ambientes digitais altamente personalizados, moldados por sistemas capazes de analisar comportamentos, emoções, preferências e impulsos em escala jamais vista anteriormente.
As redes sociais perceberam que indignação, pertencimento e tribalismo mantêm atenção contínua. O algoritmo não procura necessariamente a verdade, nem a diversidade. Ele procura retenção. Aproxima semelhantes. Reforça afinidades. Cria bolhas emocionais. E nesse ambiente, discursos identitários encontraram terreno fértil para se multiplicar.
Talvez este seja um dos pontos mais curiosos do nosso tempo. Muitos dos grupos que criticam o sistema acabam profundamente integrados ao próprio mecanismo que os impulsiona. Cada identidade torna-se também um produto de circulação digital. A subjetividade vira ativo de atenção. O indivíduo moderno passa a transformar suas dores, causas, opiniões e pertencimentos em linguagem pública permanente.
Ao mesmo tempo, o mercado absorve tudo. Empresas, marcas e corporações descobriram rapidamente o valor econômico do engajamento moral. Nasce então o chamado fenômeno “woke”, termo originalmente ligado à consciência racial nos Estados Unidos, mas que acabou se expandindo para um amplo conjunto de pautas culturais progressistas. Grandes campanhas publicitárias passaram a incorporar discursos identitários, diversidade e ativismo simbólico.
Entretanto, os próprios mercados começaram a demonstrar limites para esse modelo. Nos últimos anos, especialmente após 2020, cresce uma percepção de fadiga cultural diante de excessos moralizantes, polarizações constantes e conflitos identitários permanentes. Algumas empresas passaram a recuar de campanhas excessivamente ideológicas após perdas financeiras, rejeição pública ou desgaste de marca. Surge então a sensação de que talvez exista uma “maré de vazante” desse ciclo cultural.
Porque, no fim, existe uma força silenciosa que continua organizando o mundo moderno: a economia real. Capital, produção, trabalho, inovação, consumo e prosperidade material continuam exercendo enorme gravidade sobre a sociedade. Discursos mobilizam. Mas sociedades também precisam funcionar. Precisam produzir. Precisam gerar riqueza, infraestrutura e estabilidade.
Talvez por isso o paradoxo contemporâneo seja tão intenso. Vivemos em uma era que exalta simultaneamente o indivíduo e o pertencimento coletivo. O homem moderno deseja liberdade absoluta, mas também quer ser acolhido por tribos emocionais. Busca autenticidade, mas vive cercado por algoritmos que moldam comportamento. Critica o sistema, enquanto alimenta diariamente as plataformas que o sustentam.
No fundo, talvez as ideologias continuem apenas mudando de roupa ao longo do tempo. O ser humano permanece buscando sentido, pertencimento, reconhecimento e transcendência. Ontem através da luta de classes. Hoje através das identidades. Amanhã talvez por outra linguagem ainda desconhecida.
Mas existe algo que permanece profundamente pessoal e impossível de ser totalmente capturado por qualquer narrativa coletiva: a experiência individual da consciência humana. A vida em sociedade é inevitável. Precisamos de grupos, parceiros, comunidades e cooperação. Porém, a travessia moral, espiritual e existencial continua acontecendo dentro de cada indivíduo. Em silêncio. No território invisível da consciência. Talvez seja justamente ali que nenhuma ideologia consiga governar completamente o homem.

