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Geopolítica do uísque.

Vinicius de Moraes e a Geopolítica do Uísque

Existe uma hipótese curiosa, quase impossível de medir pelos métodos tradicionais da ciência política, mas irresistível para a imaginação cultural: talvez parte do século XX tenha sido discretamente alterada por um violão brasileiro, um samba melancólico e alguns copos de uísque servidos em apartamentos esfumaçados de Rio de Janeiro.

A história oficial costuma atribuir as grandes mudanças do mundo a:

  • guerras,
  • tratados,
  • bancos centrais,
  • revoluções,
  • eleições,
  • porta-aviões,
  • e acordos diplomáticos.

Mas a cultura possui métodos mais silenciosos de interferência histórica.

Às vezes uma canção atravessa oceanos com mais eficiência do que uma esquadra naval.

E talvez seja exatamente isso que aconteceu com Black Orpheus.

Lançado em 1959, o filme levou ao planeta uma visão tropical do Brasil. O mundo viu pela primeira vez:

  • o Carnaval como tragédia grega,
  • o samba como filosofia existencial,
  • a favela como cenário mítico,
  • e a mistura racial brasileira como paisagem natural da vida.

Tudo embalado pelas músicas de Vinicius de Moraes, Antônio Carlos Jobim e Luiz Bonfá.

O impacto cultural foi gigantesco.

Para muitos americanos e europeus dos anos 1960, aquele Brasil parecia pertencer mais ao campo da imaginação do que da geografia. Um país onde:

  • negros e brancos dançavam juntos,
  • o amor parecia musical,
  • a tristeza era cantada,
  • e o caos urbano possuía ritmo.

Era obviamente uma visão romantizada. Parcial. Poética. Cinematográfica. Mas cultura raramente opera pela precisão estatística. Ela opera pelo encantamento.

Décadas depois, surgiria uma curiosa conexão indireta.

Em suas memórias, Barack Obama comentou que sua mãe, Ann Dunham, era fascinada por Orfeu Negro. O próprio Obama observou, já adulto, como aquele imaginário tropical e mestiço talvez tivesse alimentado certa abertura cultural daquela geração americana pós-guerra.

Não porque um filme produza diretamente um presidente. Evidentemente não.

Mas porque filmes alteram sensibilidades.
Músicas alteram percepções.
E culturas alteram possibilidades humanas.

No início dos anos 1960, uma jovem branca do Kansas apaixonar-se por um estudante africano ainda era algo profundamente fora do padrão americano. Em muitos estados dos EUA, casamentos inter-raciais sequer eram plenamente aceitos legalmente.

Enquanto isso, o Brasil exportava ao mundo uma imagem quase oposta:
a da mistura inevitável.

Uma espécie de laboratório tropical da convivência humana.

É claro que a realidade brasileira era — e continua sendo — muito mais complexa do que o cartão-postal da bossa nova. Mas o fato curioso é que o imaginário brasileiro passou a circular globalmente como símbolo de:

  • miscigenação,
  • musicalidade,
  • convivência,
  • sensualidade,
  • e mistura cultural.

A cultura brasileira começou discretamente a contaminar o imaginário ocidental.

O samba entrou nos apartamentos de Manhattan.
A bossa nova entrou nos elevadores corporativos.
O violão brasileiro entrou nas universidades americanas.
E o português virou língua de melancolia sofisticada.

Enquanto diplomatas discutiam a Guerra Fria, o Brasil infiltrava harmonias.

Talvez aí esteja uma das forças mais estranhas da cultura:
ela altera o mundo sem anunciar revoluções.

Não invade territórios.
Não derruba governos.
Não produz tanques.

Mas lentamente modifica desejos, imaginários e percepções.

No fim, existe algo quase humorístico nessa hipótese histórica.

A possibilidade de que parte da longa trajetória que culminaria no primeiro presidente negro americano tenha recebido, lá atrás, uma pequena interferência indireta de um filme francês ambientado no Carnaval carioca, baseado numa peça de um diplomata brasileiro boêmio, cercado de músicos, fumaça de cigarro e copos de uísque.

Talvez a geopolítica do século XX seja mais estranha do que os cientistas políticos gostariam de admitir.

Porque enquanto o mundo estudava bombas nucleares, mercados financeiros e blocos militares, Vinicius de Moraes talvez estivesse discretamente interferindo no fluxo mundial sentado em algum bar do Rio de Janeiro, escrevendo versos sobre amor, tragédia e Carnaval — com um copo de uísque na mão.

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José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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