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Jornada conectada.?

A Revolução dos Apps e a Jornada Conectada do Consumidor Moderno

Vivemos uma transformação silenciosa.

Ela não chegou através de uma revolução política, nem por uma grande mudança industrial visível. Chegou pela palma da mão. Chegou através dos aplicativos instalados em nossos celulares.

Com o advento do mundo conectado, uma nova etapa da sociedade começou a se consolidar. Hoje, praticamente todas as empresas desejam estabelecer uma conexão permanente com seus clientes. O consumo de um produto deixou de ser um ato isolado e passou a integrar uma jornada conectada.

Da descoberta de uma marca até o descarte de sua embalagem, cada etapa pode ser acompanhada, medida, analisada e comparada em tempo real.

Recentemente vivi uma experiência curiosa. Ao visitar uma hamburgueria, fui informado de que os descontos e vantagens estavam disponíveis apenas através do aplicativo da empresa. Eu não estava interessado em instalar mais um aplicativo em meu celular. Queria apenas fazer um pedido e seguir meu caminho. Acabei desistindo da compra.

Não houve qualquer conflito. A empresa estava apenas seguindo uma tendência de mercado. Eu, por outro lado, estava exercendo minha liberdade de escolha. Ainda assim, aquele pequeno episódio revelou algo maior: estamos entrando em uma fase em que consumir um produto e aderir ao ecossistema digital da empresa estão se tornando praticamente a mesma coisa.

Do ponto de vista empresarial, a lógica é compreensível. Os aplicativos permitem acompanhar a experiência do cliente de maneira contínua. Não se trata apenas de saber se uma venda ocorreu. Trata-se de compreender hábitos, horários, frequência de compra, preferências, localização, comportamento de consumo e padrões que muitas vezes nem o próprio consumidor percebe conscientemente.

Para o desenvolvimento de produtos isso representa uma revolução. Empresas deixam de trabalhar apenas com pesquisas amostrais e passam a lidar com dados reais, gerados em larga escala e em tempo quase instantâneo. O que antes era estatística passa a ser observação direta do comportamento.

O marketing também muda de natureza. A empresa não precisa mais esperar meses para avaliar a aceitação de um produto. Ela acompanha a reação do mercado diariamente. Os ajustes são rápidos, as campanhas são refinadas e os produtos evoluem em ciclos cada vez menores.

Ao mesmo tempo, abre-se um novo campo de reflexão.

Quais dados estão sendo coletados?

Como estão sendo utilizados?

Quem os interpreta?

Com quais objetivos?

Onde termina a conveniência e começa a influência?

As mídias sociais inauguraram essa transformação. Depois vieram os aplicativos bancários, os aplicativos de transporte, os aplicativos de alimentação, os programas de fidelidade, os sistemas de compras online e os aplicativos das próprias lojas físicas.

Hoje, o aplicativo não acompanha apenas a compra.

Ele acompanha o comprador.

Talvez estejamos diante de uma nova fase da evolução comercial. Em muitos casos, os dados coletados possuem valor tão grande quanto o próprio produto vendido. Um lanche é consumido em alguns minutos. Já o comportamento do consumidor pode alimentar estratégias empresariais durante anos.

Mas a transformação não termina nos aplicativos.

Ela avança para o próprio produto.

A Jornada Conectada

Quando o produto passa a estar conectado, a relação entre consumidor e fabricante muda completamente.

O aplicativo deixa de ser apenas uma ferramenta de acesso. O próprio produto passa a conversar continuamente com o fabricante. O consumo deixa de ser um evento e passa a ser uma relação permanente.

Os veículos modernos talvez sejam o melhor exemplo desta nova realidade.

Observemos a experiência construída pela Tesla. O automóvel foi concebido para permanecer conectado ao fabricante. Atualizações de software são realizadas remotamente. Sistemas são monitorados em tempo real. Componentes podem indicar desgaste antes mesmo que o motorista perceba algum problema. A manutenção deixa de ser corretiva e passa a ser preditiva.

Sob a ótica da engenharia, trata-se de uma evolução extraordinária.

Cada quilômetro rodado produz informações.

Cada frenagem, aceleração, recarga, falha ou manutenção transforma-se em conhecimento para aperfeiçoar o projeto seguinte.

A previsibilidade nasce da conectividade.

O produto deixa de ser apenas um objeto físico. Ele passa a ser também uma fonte permanente de dados.

Talvez muitos consumidores sequer percebam a profundidade desta mudança. Ao dirigir seu veículo, utilizar um equipamento doméstico inteligente ou operar qualquer dispositivo conectado, sua experiência de uso passa a alimentar bancos de dados gigantescos.

Não há necessariamente algo negativo nisso.

Produtos melhores, mais seguros e mais eficientes beneficiam toda a sociedade.

A questão está em outro lugar.

Durante décadas, a relação entre consumidor e fabricante era relativamente simples. O consumidor comprava um produto, utilizava-o e a relação terminava ali.

Hoje, em muitos casos, essa relação nunca termina.

Ela permanece ativa, silenciosa e conectada.

A escolha de uma marca já não representa apenas a escolha de um produto.

Representa também a adesão a um ecossistema de coleta, processamento e interpretação de dados.

E isso nos conduz a uma questão ainda mais profunda.

Somente o Homem Pode Superá-lo

Para que servem, afinal, todas essas coletas de dados?

A resposta é simples.

Prever comportamentos futuros.

Toda a indústria dos dados busca reduzir incertezas. O objetivo é antecipar desejos, prever compras, identificar tendências, minimizar riscos e maximizar resultados.

O sonho de qualquer empresa é olhar para o futuro com alguma previsibilidade.

Mas existe um detalhe curioso.

Os dados são excelentes intérpretes do passado.

Costumo dizer que os sistemas de análise de dados são “profetas do passado”.

Eles observam aquilo que já aconteceu.

Processam experiências vividas.

Encontram padrões.

Identificam repetições.

Calculam probabilidades.

Mas os verdadeiros “profetas do futuro” pertencem a outra categoria.

O futuro contém decisões que ainda não foram tomadas.

Contém desejos que ainda não nasceram.

Contém oportunidades que ainda não foram percebidas.

E contém um elemento impossível de ser completamente modelado: o ser humano.

O homem é talvez o único agente do sistema capaz de superar suas próprias previsões.

Uma experiência de consumo extraordinária ontem pode não despertar qualquer interesse amanhã.

Um produto que parecia indispensável pode perder completamente o sentido.

Uma tecnologia que parecia revolucionária pode ser abandonada em poucos anos.

Quem já viveu determinada experiência não necessariamente deseja repeti-la.

Aquela experiência pertence ao passado.

O cérebro humano vive no presente.

O agora é o seu território.

Existem hábitos, atalhos cognitivos e padrões comportamentais, sem dúvida.

Mas a experiência humana não se resume a eles.

A criatividade, a curiosidade, a descoberta, a contradição e a liberdade continuam fazendo parte da condição humana.

É justamente por isso que os erros de previsão continuam existindo.

Podemos construir infinitos aplicativos.

Podemos coletar trilhões de dados.

Podemos monitorar cada etapa do consumo.

Mas o homem continua mudando todos os dias.

Talvez a maior limitação dos sistemas modernos seja imaginar que o futuro será apenas uma continuação refinada do passado.

Nem sempre é.

Observemos novamente o automóvel.

Durante décadas, possuir um carro representava muito mais do que um meio de transporte. Havia prazer em dirigir, em compreender o funcionamento da máquina, em realizar pequenos reparos e em estabelecer uma relação quase afetiva com o veículo.

Hoje essa experiência está desaparecendo.

O automóvel está se transformando em uma plataforma de mobilidade.

As novas gerações muitas vezes enxergam o transporte de forma completamente diferente.

A experiência mudou.

O significado mudou.

O comportamento mudou.

Os dados do passado registram o que foi.

Mas não explicam completamente o que será.

A natureza nos ensina algo semelhante.

Todo sistema complexo vive de equilíbrios e contrapontos.

Toda força gera uma reação.

Toda concentração produz dispersão.

Toda ordem excessiva produz novas formas de desordem.

A vida prospera justamente nessa fronteira entre organização e imprevisibilidade.

Talvez por isso os maiores resultados econômicos que observei ao longo da vida raramente tenham surgido da simples análise de planilhas e relatórios.

As grandes oportunidades normalmente apareceram em espaços ainda não explorados.

Em pequenos monopólios temporários.

Em soluções novas.

Em necessidades que ninguém havia percebido.

Em movimentos rápidos diante de oportunidades inesperadas.

O mercado recompensa a eficiência.

Mas frequentemente recompensa ainda mais a capacidade de perceber o que ninguém está vendo.

E é exatamente nesse ponto que a imprevisibilidade retorna ao jogo.

Vivemos uma época fascinante.

Os algoritmos aprendem.

As máquinas calculam.

Os dados se acumulam.

A complexidade cresce.

Mas a vida continua acontecendo na fronteira do desconhecido.

Talvez seja justamente isso que ainda nos assusta.

A imprevisibilidade.

Ela desafia nossos modelos.

Ela desafia nossas projeções.

Ela desafia nosso desejo permanente de controle.

Talvez temamos tanto a incerteza porque ela nos lembra de uma verdade simples: o futuro ainda não pertence a ninguém.

Até o momento, o mercado produziu muitas máquinas capazes de interpretar o passado.

Mas ainda não produziu máquinas capazes de viver o futuro.

Essa continua sendo uma tarefa exclusivamente humana.

Como título principal para o blog, eu sugeriria:

Conclusão

A revolução dos aplicativos não é apenas uma revolução tecnológica.

É uma revolução na observação do comportamento humano.

Nunca soubemos tanto sobre hábitos, desejos e padrões de consumo. Nunca coletamos tantos dados. Nunca tivemos tanta capacidade de transformar comportamento em estatística.

A cada novo aplicativo instalado, a cada produto conectado, a cada interação digital, ampliamos nossa capacidade de compreender o passado e interpretar o presente.

As empresas observam.

Os sistemas aprendem.

Os algoritmos calculam.

Os mercados projetam.

Tudo caminha em direção a uma previsibilidade cada vez maior.

E, ainda assim, permanece diante de nós o mesmo mistério que acompanha a humanidade desde o início dos tempos.

O homem continua capaz de escolher um caminho inesperado.

Continua capaz de mudar de ideia.

Continua capaz de abandonar velhos hábitos, criar novas necessidades, reinventar seus desejos e alterar o rumo de sua própria história.

Entre algoritmos, previsões e modelos matemáticos, permanece viva a centelha da liberdade.

Talvez seja exatamente ela que impeça que o futuro seja completamente capturado pelos dados do passado.

Os aplicativos continuarão a crescer.

Os produtos continuarão a se conectar.

Os bancos de dados continuarão a se expandir.

As máquinas continuarão a aprender.

Mas a vida continuará acontecendo naquele espaço singular onde o novo ainda não existe, onde a decisão ainda não foi tomada e onde nenhuma estatística consegue alcançar completamente.

É nesse território que habitam a criatividade, a descoberta, a coragem, a inovação e a própria condição humana.

Talvez o verdadeiro desafio de nosso tempo não seja aprender a coletar mais dados.

Talvez seja aprender a conviver com a complexidade crescente do mundo sem perder a consciência de que nem tudo pode ser previsto, controlado ou calculado.

Os dados são excelentes intérpretes do passado.

Mas o futuro continua sendo uma experiência exclusivamente humana.

José Orlando Witzler
Jornada.blog.br

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José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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