quarta-feira, 19 agosto 26

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Segurança ou Justiça

Mataste e ainda tomaste posse?

“A morte é uma obra da natureza; a injustiça é uma obra humana.”

Talvez poucas frases revelem tão claramente a condição humana.

A morte pertence à ordem natural das coisas. Árvores caem, rios secam, estrelas se apagam e homens partem. Todos os seres vivos morrem. Não há escândalo na morte. Há tristeza, há saudade, há luto. Mas a morte faz parte da natureza.

Aceitamos a morte quando ela bate à nossa porta.

Não a desejamos, mas sabemos que ela nos acompanha desde o primeiro instante da vida.

A injustiça é diferente.

Ela não nasceu com a natureza.

Ela nasceu conosco.

A injustiça é uma obra humana e moral.

Nenhuma montanha é injusta. Nenhum oceano é injusto. Um terremoto destrói sem intenção; uma doença mata sem maldade. A natureza é indiferente. Ela não julga.

Somente o homem julga.

E somente o homem é capaz de cometer injustiça.

Talvez por isso a injustiça nos fira de modo tão profundo. Ela não agride apenas o corpo. Agride a ordem moral que carregamos dentro de nós.

Existe algo em nosso íntimo — alguns chamariam de consciência, outros de alma, outros ainda de subconsciente coletivo — que se revolta diante da injustiça.

Desde crianças, antes mesmo de compreendermos leis e códigos, já pronunciamos a frase universal:

“Isso não é justo.”

Os homens desejam duas coisas desde o início da civilização: segurança e justiça.

A segurança protege o corpo.

A justiça protege a alma.

Sem segurança, a vida torna-se refém da violência. Sem justiça, a própria existência perde sentido moral.

Talvez por isso a política oscile continuamente entre essas duas forças. Estados prometem segurança. Povos clamam por justiça. Nem sempre ambas caminham juntas.

O corpo teme a violência.

A alma teme a injustiça.

Talvez por isso os homens aceitem morrer em batalha, mas não aceitem morrer injustamente.

Uma morte injusta é eterna.

Os mortos injustiçados não morrem.

Habitam a memória dos povos.

O tempo de Jeremias e a preservação da memória

A história de Nabote encontra-se no livro de 1 Reis, obra que a antiga tradição judaica frequentemente atribuiu ao profeta Jeremias.

Jeremias viveu aproximadamente entre os séculos VII e VI antes de Cristo, em um dos períodos mais dramáticos da história de Judá. Foi testemunha da decadência do reino, da corrupção política e religiosa e, por fim, da destruição de Jerusalém pelos babilônios em 586 a.C.

Conhecido como o “profeta das lágrimas”, Jeremias anunciou repetidamente que nenhuma nação permanece de pé quando abandona a justiça.

Talvez por isso a tradição tenha associado seu nome aos livros dos Reis: porque a história de Israel é narrada não como a história dos vencedores, mas como a história do julgamento moral dos poderosos.

A Bíblia realiza algo extraordinário: ela acusa seus próprios reis.

O texto antigo

Em Jezreel vivia Nabote, homem simples, proprietário de uma vinha herdada de seus pais.

O rei Acabe desejou aquela propriedade.

Ofereceu dinheiro.

Ofereceu troca.

Mas Nabote recusou:

“Guarde-me o Senhor de que eu te dê a herança de meus pais.”
(1 Reis 21:3)

A vinha não era apenas terra.

Era memória.

Era herança.

Era identidade.

Acabe entristeceu-se.

Então entrou em cena sua esposa, Jezabel.

Usando o selo do rei, organizou falsas acusações. Convocou testemunhas mentirosas. Realizou um julgamento formal.

Tudo parecia legal.

Mas nada era justo.

Nabote foi condenado e apedrejado.

Morreu.

E sua vinha foi tomada pelo poder.

Talvez esta seja uma das mais antigas narrativas sobre o uso das instituições para legitimar a injustiça.

Havia processo.

Havia testemunhas.

Havia sentença.

Mas não havia justiça.

A intervenção de Elias

É então que surge Elias.

Seu nome significa:

“Meu Deus é o Senhor.”

Elias viveu no século IX antes de Cristo e tornou-se um dos maiores profetas de Israel. Enfrentou reis, denunciou idolatrias e confrontou o poder quando este ultrapassava seus limites morais.

Na tradição bíblica, o profeta não é apenas alguém que anuncia o futuro.

O profeta é a consciência moral da nação.

Quando o poder se corrompe, surge o profeta.

Quando a lei é usada para produzir injustiça, surge a voz da consciência.

E Elias vai ao encontro do rei.

Não leva exércitos.

Não leva armas.

Leva apenas a palavra.

A ótica de Nabote: o silêncio da vítima

Mas há uma pergunta ainda mais difícil.

Falamos de Acabe.

Falamos de Jezabel.

Falamos de Elias.

Falamos do julgamento de Deus.

Mas pouco falamos de Nabote.

E Nabote?

O que significou sua vida para Deus?

E o que significou sua morte para os homens?

Do ponto de vista humano, a vida não lhe foi justa.

Nabote perdeu sua vinha.

Perdeu sua honra.

Perdeu sua segurança.

Perdeu a própria vida.

Não houve tempo para defesa.

Não havia instituições independentes.

Não existiam freios ao poder.

A força política tornou-se juiz de si mesma.

E Nabote morreu.

Sob a ótica da vítima, a história parece insuportável.

Que consolo existe para aquele que morreu injustamente?

Que reparação pode devolver os anos perdidos?

Que sentença humana pode restaurar a vida?

Talvez aqui encontremos o limite da própria justiça humana.

Porque certas perdas são eternas.

Há injustiças que nenhuma indenização repara.

Há dores que nenhum tribunal cura.

Precisamos de grande transcendência para justificar o injustificável.

Talvez seja por isso que a fé introduza uma dimensão além da história: a esperança de que exista um tempo de Deus maior que o tempo dos homens.

Pois, se tudo terminasse no instante da morte de Nabote, a injustiça teria triunfado definitivamente.

Mas a narrativa bíblica recusa essa conclusão.

Ela preserva a memória da vítima.

Ela registra o crime.

Ela expõe o poder.

Ela impede o esquecimento.

E assim Nabote, homem simples de uma pequena vinha, atravessa quase três milênios e continua falando às gerações futuras.

Há também uma inquietação mais profunda.

Quantas riquezas existentes no mundo nasceram de injustiças que sequer conhecemos?

Quantas propriedades, impérios e heranças foram construídos sobre dores esquecidas pelo tempo?

Não sabemos.

Mas a história de Nabote permanece como uma trilha exposta que não devemos seguir.

Um contraexemplo moral.

Um aviso às gerações.

Porque existem dívidas que os homens esquecem, mas a consciência da humanidade não.

Somente o tempo de Deus pode reparar plenamente aquilo que o tempo dos homens destruiu.

A injustiça e a ira de Deus

A Bíblia apresenta uma ideia radical: Deus pode tolerar fraquezas humanas, mas a injustiça deliberada provoca Sua ira.

A ira de Deus não é capricho.

É a reação da ordem moral contra aquilo que destrói a dignidade humana.

Desde Abel até Nabote, a Escritura afirma que o sangue inocente clama da terra.

A injustiça produz desequilíbrio.

Ela rompe alianças.

Corrompe instituições.

Envenena gerações.

Talvez por isso tantas tradições religiosas ensinem que a justiça não é apenas um princípio jurídico, mas uma exigência cósmica.

Conclusão

Então Elias pronuncia uma das frases mais poderosas de toda a literatura antiga:

“Mataste e ainda tomaste posse?”
(1 Reis 21:19)

A pergunta atravessa os séculos.

Dirige-se aos reis.

Aos governos.

Aos tribunais.

Às empresas.

Às famílias.

E a cada um de nós.

Quantas vezes o poder tomou posse depois de destruir?

Quantas vezes a legalidade serviu de máscara para a injustiça?

Se não houvesse Deus para assegurar a justiça humana, o que seria da humanidade?

Talvez apenas uma barbárie inconsequente dos que detêm o poder.

Mas a história humana parece apontar para algo maior: existe uma ordem moral inscrita no coração dos homens.

Neste fluxo atual da humanidade conectada, atingimos um estado inédito de interdependência. A justiça tornou-se ainda mais imperativa, pois a injustiça produz desequilíbrios que atravessam fronteiras e gerações.

Uma borboleta sacrificada fora das leis da natureza pode desencadear uma catástrofe do outro lado do mundo.

Da mesma forma, uma injustiça aparentemente pequena pode alterar o destino de povos inteiros.

Porque a morte pertence à natureza.

Mas a injustiça pertence ao homem.

E os mortos injustiçados não morrem.

Habitam a memória dos povos.

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José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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