quarta-feira, 19 agosto 26

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Palácio de memorias.

O Palácio das Memórias

Os antigos falavam de algo curioso: o Palácio das Memórias. Gregos, romanos e, mais tarde, os jesuítas utilizavam uma técnica na qual o conhecimento era guardado em lugares imaginários. Para recordar uma ideia, bastava caminhar mentalmente por um palácio, abrir uma porta, entrar em um cômodo e encontrar ali a lembrança que havia sido depositada.

Talvez eles tenham descoberto algo muito mais profundo sobre a natureza humana.

Talvez todos nós carreguemos um palácio semelhante.

Dentro de nós existe uma cidade invisível, construída ao longo dos anos. Nela há uma pequena escola da infância, onde ainda ecoam os sons do recreio e das primeiras descobertas. Há uma igreja silenciosa, onde aprendemos nossas primeiras orações e ouvimos perguntas sobre o sentido da vida. Existe a casa de família, com seus cheiros, suas alegrias e também suas ausências.

Em algum lugar dessa cidade mora a lembrança de um primeiro amor adolescente. Há uma praça onde permanecem os sonhos de juventude, uma sala onde repousa o diploma que simbolizou uma conquista, uma capela onde ainda ressoa a música de um casamento e, inevitavelmente, existe também um cômodo mais silencioso, onde estão as despedidas e os velórios, os momentos em que compreendemos que tudo na vida é passageiro.

Curiosamente, visitamos esses lugares o tempo todo.

Às vezes basta uma fotografia, uma música, um perfume ou uma frase esquecida para que uma porta se abra de repente. Então caminhamos novamente por esses corredores, retiramos a poeira das lembranças e, por alguns instantes, voltamos a habitar um tempo que já não existe.

O cérebro humano parece funcionar dessa maneira. Ele constrói trilhas. Organiza caminhos. Cria atalhos para localizar rapidamente aquilo que considera importante. Quanto mais percorremos uma determinada estrada interior, mais fácil se torna encontrá-la novamente.

Talvez seja por isso que nos lembramos com tanta facilidade da disposição dos cômodos de uma casa onde vivemos há cinquenta anos, mas esquecemos rapidamente uma lista de nomes ou de números.

Nosso cérebro gosta de lugares.

Ele se orienta por espaços, imagens e percursos.

E é justamente aqui que o antigo Palácio das Memórias deixa de ser apenas uma curiosidade histórica para se tornar uma poderosa ferramenta.

Se naturalmente organizamos nossas experiências em cidades e edifícios interiores, por que não utilizar conscientemente esse mecanismo?

Por que não criar um palácio mental para guardar aquilo que desejamos aprender?

Uma língua nova.

Uma palestra.

Uma sequência de ideias.

Um discurso.

Os nomes de pessoas.

Uma lista de conceitos.

Os antigos faziam exatamente isso. Construíam mentalmente uma casa, um templo ou uma cidade e, em cada cômodo, depositavam uma informação. Depois, bastava caminhar por esse lugar imaginário para recuperar aquilo que havia sido guardado.

Talvez a memória seja menos um arquivo e mais um território.

Menos uma gaveta e mais uma cidade.

E talvez o segredo não esteja em tentar decorar mais, mas em aprender a construir melhores caminhos para encontrar o que já sabemos.

Quem sabe, dentro de cada um de nós, exista um imenso palácio ainda pouco explorado, repleto de salas vazias esperando para receber novos conhecimentos.

E, conhecendo um pouco melhor a forma como nosso cérebro trabalha, podemos fazer algo extraordinário: transformar a própria memória em uma arquitetura consciente.

Construir nossos palácios.

Organizar nossas salas.

Depositar ali as informações que realmente importam.

E, quando necessário, simplesmente caminhar por seus corredores e encontrá-las novamente.

Talvez este seja um dos mais antigos e eficientes métodos de memorização já descobertos pelo ser humano: aprender a dar um lugar às ideias para nunca mais perder o caminho de volta até elas.

José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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