Janeiro de 1979.
A América Latina vivia cercada pelo medo.
Medo das guerras ideológicas.
Medo das revoluções.
Medo das ditaduras.
Medo da pobreza.
Medo do futuro.
E então um homem vindo da Polônia, sobrevivente do nazismo e do comunismo, sobe ao púlpito em Puebla, no México, e pronuncia uma frase que atravessaria o século:
“Não tenhais medo.
Escancarai as portas a Cristo.”
Naquele momento, talvez poucos tenham percebido a profundidade daquela mensagem.
Ela não era apenas religiosa.
Era civilizacional.
João Paulo II parecia enxergar algo chegando no horizonte da humanidade.
Um novo homem.
Não mais o homem ideológico do século XX.
Mas o homem tecnológico do futuro.
Um homem cercado por máquinas.
Conectado por redes.
Abastecido por dados.
Hipnotizado pela velocidade.
E lentamente afastado da transcendência.
O homem moderno havia substituído Deus pelas ideologias.
Mas o homem pós-moderno começaria a substituir Deus pela própria tecnologia.
A tecnologia deixaria de ser ferramenta.
Ela se tornaria propósito.
O homem passaria a viver para manter-se atualizado.
Conectado.
Sincronizado.
Compatível com o próximo fluxo tecnológico.
Sua ansiedade deixaria de ser espiritual.
Passaria a ser operacional.
O medo moderno não seria mais apenas o medo da guerra.
Seria o medo de tornar-se obsoleto.
E talvez seja exatamente por isso que aquela homilia de Puebla continua tão atual.
João Paulo II não apontava para um sistema político.
Não apontava para um modelo econômico.
Não apontava para um partido.
Ele apontava para uma cruz.
Porque a cruz representa um eixo fixo.
Um ponto imóvel acima do caos humano.
Um ponto elevado de convergência.
O homem olha para cima e encontra direção.
Olha apenas para baixo e encontra fragmentação.
As antigas civilizações sabiam disso.
Toda sociedade precisa de um ponto acima dela mesma para permanecer humana.
Quando o homem perde o alto como referência, ele começa a girar em torno de si próprio.
E uma humanidade que gira apenas ao redor de si mesma inevitavelmente entra em colapso espiritual.
A tecnologia ampliou nossa capacidade de agir.
Mas não ampliou nossa capacidade de encontrar sentido.
Ela acelera o homem.
Mas não responde para onde ele deve ir.
Ela multiplica dados.
Mas não produz sabedoria.
Ela conecta bilhões de pessoas.
Mas não elimina a solidão.
Ela cria inteligências artificiais.
Mas não cria propósito.
E então surge novamente a voz daquele Papa em Puebla atravessando o tempo:
“Não tenhais medo.”
Não temais o futuro.
Não temais as máquinas.
Não temais a velocidade do mundo.
Mas também não retirem os olhos da cruz.
Porque quando a tecnologia ocupa o lugar de Deus, ela deixa de servir ao homem e começa lentamente a exigir que o homem sirva a ela.
O homem passa então a adaptar sua vida ao sistema.
Seu tempo ao algoritmo.
Seu valor à produtividade.
Sua identidade à validação digital.
E uma sociedade sem transcendência acaba inevitavelmente voltando-se contra o próprio homem.
Pois sem um princípio superior, o homem passa a ser apenas recurso.
A cruz permanece então como um lembrete silencioso:
o ser humano possui dignidade antes de possuir utilidade.
Talvez Puebla tenha sido mais do que uma homilia.
Talvez tenha sido um aviso antecipado ao século XXI.
Um chamado planetário.
Um manifesto espiritual para a humanidade tecnológica que surgiria décadas depois.
Olhar para o alto.
Olhar para a cruz.
Não por fuga do mundo.
Mas para não perder a própria humanidade dentro dele.
Porque no alto permanece o ponto de convergência.
E enquanto houver homens capazes de levantar os olhos acima das máquinas, acima do medo e acima do ruído do mundo, ainda existirá esperança.
Não temas.
Olhe para o alto.
Lá está a cruz.

