sexta-feira, 5 junho 26

Top 5 semana

Posts Relacionados

O ponteiro de segundos.

Hoje pela manhã, ao despertar e olhar para o ponteiro do relógio, uma ideia simples me atravessou de maneira estranha.

Talvez o cérebro humano não conheça realmente o tempo.

Conhece apenas o agora.

Ou melhor: talvez nem o agora consiga tocar plenamente.

Observei o ponteiro dos segundos tentando perceber aquele instante exato em que ele avançava. Mas havia um paradoxo inevitável: no momento em que minha consciência confirmava mentalmente o segundo observado, ele já havia passado.

A constatação chegava atrasada.

O presente escapava.

Talvez seja sempre assim. Talvez jamais tenhamos acesso ao instante puro. O cérebro precisa captar a imagem, processar sinais, organizar percepções e somente então reconhecer o acontecimento. Quando isso ocorre, o evento já deslizou para a memória.

Vivemos em um pequeno atraso biológico contínuo.

E isso me levou a outra percepção curiosa: talvez toda a civilização moderna tenha sido construída sobre a tentativa de aprisionar aquilo que biologicamente nunca conseguimos tocar.

O tempo.

As grandes cidades respiram relógios. O mercado financeiro transforma segundos em fortunas. Os juros compostos criam projeções futuras gigantescas, multiplicando números quase abstratos, muitas vezes desconectados da matéria real, da produção real e até da própria vida humana.

O tempo virou ativo econômico.

Medimos produtividade por horas.
Medimos valor por velocidade.
Medimos sucesso por antecipação.

Mas o organismo humano continua o mesmo.

Uma criança continua levando anos para amadurecer.
Uma gestação continua próxima de nove meses.
O corpo envelhece lentamente.
O amor exige convivência.
A dor necessita tempo.
O luto não aceita aceleração tecnológica.

As células não sabem o que é internet.

Talvez exista um conflito silencioso entre o relógio e a biologia.

Porque a natureza parece funcionar em fluxo contínuo, orgânico, quase musical. Já o homem moderno fragmentou o tempo em partes cada vez menores, tentando dominá-lo matematicamente.

Mas talvez o tempo não seja algo que possa ser possuído.

Talvez apenas atravessado.

E os sonhos talvez revelem discretamente isso. Enquanto dormimos, passado, presente e futuro se misturam sem cronologia rígida. Pessoas mortas conversam conosco. A infância retorna em segundos. Décadas se comprimem em um único cenário simbólico.

O cérebro parece menos interessado em relógios do que em significados.

Talvez a vida interior nunca tenha sido linear.

Há algo de curioso nisso tudo:
construímos relógios atômicos capazes de medir bilionésimos de segundo, mas seguimos incapazes de viver plenamente um único instante.

Talvez porque a consciência humana não habite números.

Habite fluxo.

Foi assim que via o tempo hoje ao acordar olhando o meu relógio.

José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Popular Articles