Jogral – O Chamado das Águas
Personagens:
🔹 EU – O homem, reflexivo, em busca de sentido.
🔹 ÁGUA – A voz fluida, ancestral, que guarda memórias e mistérios.
EU:
Na escola, nos primeiros anos, tive uma aula de química.
O professor Valdemar disse algo que nunca esqueci.
ÁGUA:
“A água foi criada há bilhões de anos.
E a quantidade de água no planeta é a mesma.”
EU:
Praticamente…
Não se cria mais água?
ÁGUA:
Não.
Eu sou a mesma, de sempre.
Caminho, percorro, passo… e retorno.
EU:
Desde então, carrego uma pergunta:
A água do meu corpo…
Qual a sua origem?
Por quem já passou?
ÁGUA:
Já estive em reis e em crianças,
em poetas e soldados,
em lágrimas e tempestades.
Eu sou antiga.
Eu sou memória líquida.
EU:
Será que carrega lembranças?
Será que guarda histórias?
Será que sente?
ÁGUA:
Sinto…
quando sou esquecida.
Sinto…
quando sou maltratada.
Mas também celebro…
quando fluo, quando danço, quando limpo.
EU:
Fui gerado em água,
imerso no ventre da minha mãe.
Ela me alimentava com fluidos,
com amor filtrado.
ÁGUA:
Eu era ponte.
Eu era ventre.
Eu era vida chegando devagar.
E continuo.
EU:
Hoje, percebo:
Me alimento de água nas frutas,
nos vegetais,
até nas carnes de seres vivos.
Carrego tudo isso em mim.
ÁGUA:
E sigo em ti.
Respiro contigo.
Choro contigo.
Curo contigo.
EU:
Então…
E a saúde?
E a cura que tanto buscamos?
Pode vir de ti?
ÁGUA:
Sim.
Mas preciso de atenção.
De respeito.
De fluxo.
Sou purificação em movimento.
EU:
Você…
já conversou com a água?
Já escutou sua origem?
Já entendeu sua fonte?
ÁGUA:
Eu sou você.
Estou em você.
E ao passar por você,
serei em outros.
Mas…
EU:
Mas?
ÁGUA:
Preciso de forma.
E tua forma me dá sentido.
Sou faxineira.
Sou condutora.
Mas também preciso ser purificada.
EU:
E quando não flui?
ÁGUA:
Fico densa.
Me saturo.
Adoeço.
Mas…
quando me lanço das alturas,
nas cachoeiras,
eu me alegro!
EU:
Recebe o ar novo…
ÁGUA:
Oxigênio!
Me elevo!
Me transformo em névoa,
em nuvem,
em brisa.
EU:
E volta ao chão…
ÁGUA:
Com sede de cura.
Com vontade de limpar.
EU:
Você…
não tem cor,
nem gosto,
nem forma.
ÁGUA:
E por isso preciso de ti.
A tua consciência me molda.
Me dá sentido.
Me torna sagrada.
AMBOS (juntos, pausadamente):
Somos um só.
Você e eu.
Água e homem.
Memória e fluxo.
Vida que continua.

