“Você sempre foi assim ou está ficando?”
Eu sou eu, porque você é você. Só consigo ser eu se você continuar sendo você. E, da mesma forma, para que você seja você, eu devo permanecer sendo eu mesmo. Esse pacto silencioso entre identidade e alteridade é o que sustenta qualquer diálogo verdadeiro. Somos, em parte, a confirmação mútua de nossa existência.
Mas não basta reconhecer esse vínculo. É preciso admitir outra camada da equação: “Eu sou mais as minhas circunstâncias.” A frase de Ortega y Gasset abre o campo para uma reflexão inevitável: não existimos no vazio. O entorno nos atravessa, nos molda, nos força a revisões, adaptações e, muitas vezes, rupturas. Quem ousa pensar que é apenas essência incorruptível esquece o peso invisível da vida: as contingências que nos pressionam, a história que nos precede, os contextos que nos impõem escolhas.
E então a frase inicial volta como um eco perturbador: “Você sempre foi assim ou está ficando?” O que é essência? O que é fluxo? O que é identidade profunda e o que é apenas reflexo momentâneo? Talvez sejamos sempre um amálgama, uma costura imperfeita entre permanência e transitoriedade.
Essa ambiguidade nos conduz a uma questão mais densa e até angustiante:
Até que ponto você tem o controle de conter a sua condição de vir a ser, sem se perder no processo e não se reconhecer mais no espelho?
As circunstâncias nos empurram, as forças sociais nos comprimem, o tempo nos consome. Você tem ferramentas emocionais para suportar a pressão das circunstâncias e distinguir o que são incorporações definitivas e o que são apenas passageiras?
O que muda em nós e nunca volta? O que entra e sai como vento? A biologia nos arrasta para o envelhecimento, sem negociação possível. Já o pensamento, o caráter, o horizonte intelectual estes podem ser lapidados. Mas a lapidação também tem seus riscos: podemos polir tanto que acabamos por apagar as arestas que nos davam forma.
No fundo, a pergunta não é apenas sobre o outro é sobre nós mesmos. Sempre fomos assim ou estamos ficando? E se estamos ficando, ficando o quê? A resposta talvez nunca seja definitiva. Somos projeto inacabado, identidade em fluxo, consciência em construção permanente.
Talvez a morte seja o único limite desse processo, o corte brusco da escultura em andamento. Até lá, seguimos vivendo como versões provisórias de nós mesmos.
E, como ironia final, deixo esta provocação: você que leu até aqui ainda é o mesmo?
Ou já é outra versão moldada pelas circunstâncias deste texto?
By/José Orlando Witzler
