“Paris, outubro de 2026 — Uma parede, várias mensagens e uma pergunta: quem fala em nome da multidão?”

O anonimato das massas: quando uma manifestação deixa de pertencer aos manifestantes
Uma pichação em Paris, o simbolismo do 7 de outubro e uma reflexão sobre os perigos de uma multidão que nem sempre sabe quem está falando em seu nome.
Hoje, ao acompanhar um noticiário, recortei uma imagem que me chamou particularmente a atenção. Era a fachada de um prédio público em Paris, coberta por algumas pichações em vermelho.
À primeira vista, mais uma daquelas manifestações urbanas que se tornaram comuns nas grandes cidades europeias. Frases, símbolos, datas e palavras de ordem. Nada muito diferente daquilo que vemos frequentemente nas televisões e nas redes sociais.
Mas havia algo naquela imagem que merecia uma segunda leitura.
Entre as inscrições, destacava-se a expressão francesa “Déluge d’Al Aqsa”, ou “Dilúvio de Al-Aqsa”.
Para quem desconhece seu significado, poderia parecer apenas mais uma referência à causa palestina. Entretanto, trata-se do nome utilizado pelo Hamas para identificar a operação de 7 de outubro de 2023, quando seus combatentes invadiram Israel, mataram aproximadamente 1.200 pessoas e sequestraram cerca de 250.
Ao lado da expressão, a data 7/10 e um triângulo vermelho invertido, símbolo que também passou a aparecer na propaganda militar do Hamas.
Aquela parede, portanto, não continha apenas palavras de protesto. Carregava referências a um dos acontecimentos mais violentos e traumáticos da história recente do Oriente Médio.
E o que isso estaria fazendo em uma manifestação na França?
Quando uma causa encontra outra
Na mesma parede aparecia outra inscrição: “17/10: GJ × GenZ”.
Aparentemente, uma referência aos Gilets Jaunes, os conhecidos coletes amarelos franceses, e à Geração Z, jovens que vêm participando de diferentes movimentos de contestação social.
Aqui começa o aspecto mais interessante dessa fotografia.
O que aproxima a insatisfação de jovens franceses, os movimentos contra o custo de vida e um episódio de violência ocorrido no Oriente Médio?
Talvez muito pouco, quando examinamos as reivindicações concretas de cada grupo.
Entretanto, no universo das manifestações de massa, causas diferentes podem acabar compartilhando o mesmo espaço, os mesmos slogans e, eventualmente, os mesmos adversários simbólicos.
Uma manifestação que começa reivindicando melhores condições de vida pode terminar exibindo bandeiras e mensagens que muitos de seus participantes sequer compreendem.
E é justamente aí que mora o perigo.
Os oportunistas sabem o que desejam
É preciso reconhecer uma característica importante dos movimentos coletivos: nem todos os participantes chegam com as mesmas intenções.
Há aqueles que comparecem por convicção, por indignação legítima, por solidariedade ou simplesmente porque desejam ser ouvidos.
Mas há também indivíduos e grupos muito mais organizados, que conhecem o poder das imagens, das palavras e dos símbolos.
Esses sabem exatamente qual mensagem desejam transmitir.
Enquanto muitos manifestantes estão preocupados com a reivindicação original, outros podem enxergar naquela multidão uma oportunidade extraordinária de promover suas próprias ideias.
O anonimato da massa oferece uma espécie de proteção.
Quem escreveu aquela mensagem na parede de Paris? Quem autorizou? Quem concordava com ela? Quantos manifestantes conheciam seu verdadeiro significado?
Não sabemos.
Mas sabemos que a inscrição existiu e que seus símbolos não eram inocentes em seu significado histórico.
Não é possível afirmar que conhecemos a intenção pessoal do autor. Entretanto, a combinação de uma data, do nome de uma operação militar e de símbolos associados ao conflito sugere uma mensagem construída com referências bastante específicas.
Eis a questão: uma única pessoa pode escrever uma frase que será fotografada diante de milhares de manifestantes, criando a impressão de que aquela mensagem representa toda a multidão.
Uma manifestação pode ser capturada simbolicamente sem que seus participantes percebam.
A multidão não tem uma única consciência
Esse fenômeno não é novo.
O psicólogo social francês Gustave Le Bon, em sua obra Psicologia das Multidões, publicada em 1895, procurou compreender como o comportamento dos indivíduos pode se transformar quando passam a agir coletivamente.
Suas interpretações foram posteriormente questionadas e ampliadas por outros pesquisadores, mas permanece importante uma de suas observações: o ambiente coletivo pode modificar a percepção individual de responsabilidade e favorecer a propagação de emoções e ideias.
A multidão tem força, mas não possui necessariamente uma consciência única.
Ela reúne milhares de consciências individuais, com conhecimentos, expectativas e intenções diferentes.
Por isso, é tão fácil confundir a presença de uma pessoa em determinado movimento com sua concordância com tudo aquilo que acontece ao redor.
Uma bandeira levantada por poucos pode aparecer nas fotografias de muitos.
Uma palavra de ordem pode se espalhar antes que seu significado seja compreendido.
Um pequeno grupo organizado pode conseguir uma visibilidade muito superior à sua verdadeira representatividade.
E, quando isso acontece, a manifestação corre o risco de deixar de pertencer àqueles que originalmente a convocaram.
O Brasil conhece esse problema
É impossível observar essa dinâmica sem recordar os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, em Brasília.
Naquele dia, uma multidão invadiu e depredou as sedes dos Três Poderes, produzindo um dos episódios mais graves da história recente da democracia brasileira.
Os acontecimentos tiveram consequências políticas, jurídicas e humanas profundas.
É necessário distinguir as responsabilidades individuais, as diferentes formas de participação e as evidências apuradas pela Justiça. Não seria correto afirmar que todos os envolvidos possuíam as mesmas intenções.
Mas também seria incorreto ignorar que houve atos organizados de violência e ataques às instituições democráticas.
O episódio demonstra como a reunião de pessoas em torno de insatisfações políticas pode adquirir consequências muito diferentes daquelas imaginadas por parte de seus participantes.
Uma coisa é manifestar descontentamento.
Outra, completamente diferente, é participar de uma ação que ultrapassa os limites da manifestação pacífica e se transforma em violência.
A passagem de uma situação para outra nem sempre é percebida a tempo por todos os presentes.
E o fato de alguém estar cercado por milhares de pessoas não elimina sua responsabilidade pelas próprias decisões.
A fotografia que conta mais do que parece
Voltemos à parede de Paris.
Uma pichação realizada antes de uma manifestação pode antecipar uma narrativa, provocar reações e preparar o cenário simbólico para acontecimentos posteriores.
Não significa, necessariamente, que exista uma grande conspiração por trás de cada inscrição.
Mas revela uma possibilidade concreta: a de alguém aproveitar um movimento social para introduzir mensagens que não pertencem à sua reivindicação original.
O autor daquela pichação talvez jamais seja identificado. Ainda assim, sua mensagem ganhou visibilidade, circulou pelos noticiários e alcançou pessoas a milhares de quilômetros de distância.
Inclusive chegou até mim, aqui no Brasil.
Uma parede, algumas palavras e uma fotografia.
Foi suficiente para produzir uma comunicação internacional.
Esse é o extraordinário poder dos símbolos em nossa época.
A lição que fica
Manifestar-se é um direito fundamental de uma sociedade livre. A possibilidade de reunir pessoas, expressar indignação e questionar o poder faz parte da própria essência da democracia.
Mas participar de uma multidão exige discernimento.
É preciso compreender quem organiza, quais são os objetivos, quais mensagens estão sendo divulgadas e, principalmente, perceber quando uma reivindicação legítima começa a ser utilizada para finalidades diferentes.
Nem toda pessoa que caminha ao nosso lado compartilha nossos valores.
Nem toda bandeira levantada em uma manifestação representa seus participantes.
E nem toda palavra de ordem merece ser repetida.
A multidão pode ampliar nossa voz, mas não deve substituir nossa consciência.
Talvez essa seja a grande lição daquela parede em Paris: o perigo não está apenas nas ideias que conhecemos e combatemos, mas também naquelas que, por descuido, permitimos que sejam associadas a nós.
Antes de seguir uma multidão, convém saber para onde ela pretende caminhar — e quem está tentando escolher o caminho.
Porque, no final, podemos descobrir que entramos em uma manifestação por uma causa e acabamos aparecendo na fotografia de outra.
Qualquer semelhança com acontecimentos brasileiros será mera coincidência. Ou talvez uma oportunidade de reflexão.
Referências para aprofundamento
- Gustave Le Bon — Psicologia das Multidões (1895).
- Elias Canetti — Massa e Poder (1960).
- Henri Tajfel e John Turner — estudos sobre identidade social e comportamento intergrupal.
- Constituição Federal brasileira — artigo 5º, inciso XVI, sobre o direito de reunião pacífica.
- Investigações e decisões judiciais relativas aos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023.
Jornada — Reflexões sobre o comportamento humano, a sociedade e o nosso tempo.
Jose Orlando Witzler.
Pesquisa realizada e organizada .
