
Assisti recentemente ao filme A Viagem de Pedro, dirigido por Laís Bodanzky, e confesso que terminei o filme ainda mais tocado pela figura de Dom Pedro I.
Eu já tinha por ele uma consideração especial. Sempre enxerguei Pedro I como um verdadeiro herói brasileiro — não no sentido de um homem perfeito, porque certamente não foi, mas no sentido daqueles personagens raros que, em uma vida extraordinariamente curta, atravessam acontecimentos capazes de mudar o destino de povos inteiros.
Pedro nasceu em 1798, no Palácio de Queluz, em Portugal. Veio ainda menino para o Brasil, em 1808, acompanhando a transferência da Corte portuguesa. Aqui cresceu, tornou-se homem e acabou profundamente ligado à terra que o acolheu.
Em 1822, com apenas 23 anos, estava no centro dos acontecimentos que levariam à Independência do Brasil. Tornou-se nosso primeiro imperador e participou diretamente da difícil construção política de uma nova nação.
Mas sua trajetória não terminou no Ipiranga.
Em 1831, pressionado por uma grave crise política, abdicou da Coroa brasileira em favor de seu filho, o pequeno Pedro de Alcântara — futuro Dom Pedro II, então com apenas cinco anos — e deixou definitivamente o Brasil.
É justamente essa travessia que serve de cenário para A Viagem de Pedro.
O filme procura retirar por alguns momentos a coroa do imperador para mostrar o homem que existia por baixo dela: suas lembranças, seus conflitos, suas mulheres, seus filhos, suas decisões e seus fantasmas.
E inevitavelmente surge Maria Leopoldina.
Uma mulher extraordinária.
Educada, culta, interessada em ciências naturais e formada dentro de uma das mais importantes casas imperiais da Europa, Leopoldina teve participação relevante nos acontecimentos que cercaram a Independência. Seu casamento com Pedro foi uma união dinástica, como era comum entre as famílias reais, mas tornou-se também uma parceria decisiva para a história brasileira.
Foi uma relação intensa e complexa, com afeto, filhos, cumplicidade política, mas também sofrimento e infidelidades por parte de Pedro. Talvez justamente por isso seja uma história tão humana. Leopoldina não deveria permanecer na História apenas como “a esposa de Dom Pedro”. Ela própria merece ser compreendida como uma personagem fundamental da formação do Brasil.
Depois de deixar o país, Pedro ainda viveria outra impressionante batalha.
Na Europa, lutou contra seu irmão Dom Miguel e em defesa dos direitos de sua filha Maria da Glória ao trono português. O antigo imperador do Brasil transformou-se novamente em soldado e líder de uma causa política. Venceu.
Mas praticamente não teve tempo de saborear a vitória.
A tuberculose avançava.
Em 24 de setembro de 1834, Dom Pedro morreu com apenas 35 anos.
E há nessa história uma circunstância que particularmente me emociona.
Pedro morreu no Palácio de Queluz, no mesmo lugar onde havia nascido.
Eu tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o Palácio de Queluz. Mais do que visitá-lo, entrei no quarto em que Dom Pedro nasceu e onde, 35 anos depois, morreu.
Hoje, depois de assistir ao filme, aquela visita ganhou para mim outro significado.
Imagino aquele homem retornando ao ponto inicial de sua existência depois de ter atravessado o Atlântico, participado da Independência de um país, sido imperador do Brasil, abdicado de uma Coroa, separado-se definitivamente de um filho pequeno, atravessado novamente o oceano, enfrentado uma guerra e garantido o trono de outra filha.
Tudo isso em apenas 35 anos.
É difícil não pensar na intensidade dessa existência.
Talvez seja justamente isso que A Viagem de Pedro consiga provocar. Não precisamos concordar com todas as escolhas cinematográficas nem tomar o filme como um documentário histórico. Ele é uma interpretação. Mas consegue despertar a vontade de olhar novamente para aquele personagem que muitas vezes conhecemos apenas pela imagem congelada do homem a cavalo, espada erguida às margens do Ipiranga.
Havia muito mais naquele homem.
Havia Pedro.
Com suas virtudes, paixões, erros, contradições, coragem e uma impressionante capacidade de agir quando a História colocou diante dele decisões que não podiam esperar.
Por isso, recomendo A Viagem de Pedro.
Recomendo o filme, mas recomendo principalmente aquilo que ele despertou em mim: a vontade de conhecer novamente Dom Pedro I e Maria Leopoldina.
Ele, um homem que viveu apenas 35 anos e ajudou a criar um país.
Ela, uma mulher extraordinária cuja inteligência, cultura, sensibilidade e participação política ainda merecem ser muito mais conhecidas pelos brasileiros.
Depois do filme, fiquei com uma impressão ainda mais forte daquela que já carregava:
Pedro I teve uma vida curta demais para tanta História.

