A Profecia Celestina e a importância dos encontros

Por que A Profecia Celestina?
No romance de James Redfield, a história começa com a descoberta de um antigo manuscrito. Algo que estava escondido vem à luz e põe as pessoas em movimento. Elas partem em busca de suas revelações, mas, ao longo do caminho, começam também a olhar de outra maneira para a própria vida.
É esse sentido de busca que me interessa. Às vezes sentimos que perdemos alguma coisa, embora não saibamos dizer exatamente o quê. Seguimos ocupados, encontramos pessoas, conversamos, nos despedimos. Só mais tarde percebemos que um encontro poderia ter nos mostrado algo, se tivéssemos prestado atenção.
Talvez o que procuramos não esteja tão distante. Pode surgir numa conversa simples, numa coincidência que nos faz parar ou na disposição de ouvir alguém sem julgá-lo de imediato. Há uma compreensão que não chega pelo esforço de controlar tudo. Ela começa quando nos tornamos atentos.
Leio a busca narrada no livro como um convite a recuperar essa sensibilidade. Não precisamos transformar cada encontro numa mensagem misteriosa. Mas podemos perguntar, com sinceridade: o que esta pessoa tem a me mostrar, e o que eu deixo de perceber quando tento julgá-la ou conduzi-la?
A Profecia Celestina é um romance de James Redfield, autor e terapeuta norte-americano, publicado originalmente em 1993. Redfield escolheu contar suas ideias por meio de uma aventura: o protagonista viaja ao Peru em busca de um antigo manuscrito que, na ficção, reúne nove percepções espirituais. O livro ganhou uma adaptação para o cinema em 2006, da qual o próprio autor participou como corroteirista e produtor.
Segundo Redfield, sua intenção era dar forma narrativa a experiências que observava em pessoas comuns: coincidências que parecem significativas, perguntas sobre o propósito da vida e mudanças na maneira de perceber o mundo. Em vez de apresentar uma teoria acadêmica, ele quis que o leitor acompanhasse uma jornada e reconhecesse nela algo de sua própria experiência.
Uma das ideias do livro me chama especialmente a atenção: o que acontece no encontro entre duas pessoas? Podemos nos aproximar para ouvir e oferecer algo. Mas também podemos nos aproximar para disputar atenção, julgar ou exercer controle. A oitava visão do livro trata justamente dessa ética das relações e propõe uma atitude de doação no lugar da disputa por poder.
É aqui que começo minha própria reflexão sobre a impartição. Há o eu e há o tu. Entre os dois existe um espaço que não pertence a nenhum deles: o espaço do encontro. A proximidade física pode abrir uma oportunidade, mas não garante que algo aconteça. Quantas vezes estamos ao lado de alguém sem realmente vê-lo?
A palavra próximo ajuda a perceber essa passagem. Como adjetivo, descreve quem está perto. Como substantivo, o próximo é alguém cuja vida reconheço. Na parábola do bom samaritano, Jesus desloca a pergunta “quem é o meu próximo?” para a atitude de quem vê uma pessoa ferida e age com misericórdia. O próximo não é apenas quem estava a uma curta distância; é também quem decidiu se fazer próximo.
Para que a impartição aconteça nesse “entre”, acredito que é preciso haver amor. Posso ter uma palavra, uma experiência ou um dom a oferecer. Se me aproximo para provar que estou certo, para fazer o outro depender de mim ou para moldá-lo à minha vontade, já comprometi o encontro. O amor verdadeiro não precisa possuir a pessoa para alcançá-la.
Isso exige vigilância sobre nós mesmos. Julgar pode parecer discernimento; manipular pode parecer cuidado. Antes de falar, preciso perguntar: estou procurando compreender esta pessoa ou apenas classificá-la? Estou oferecendo algo livremente ou esperando controlar sua resposta? Policiar-se, nesse sentido, não é vigiar a vida do outro. É examinar a própria intenção.
Essa é a ligação que faço com o amor ensinado por Jesus. Ele chama seus discípulos a amar uns aos outros. Paulo descreve um amor paciente, bondoso e que não busca apenas seus próprios interesses. Leio nessas passagens um convite a servir sem transformar o outro em posse.
A Profecia Celestina usa a linguagem de energia e fluxo para falar das relações. Minha leitura cristã usa outra linguagem: graça, próximo e ação do Espírito Santo. Não preciso considerar essas explicações idênticas para reconhecer a pergunta valiosa que o livro desperta: estou dando espaço para que o outro exista livremente diante de mim?
Talvez a importância dos encontros esteja justamente aí. Alguém pode nos mostrar uma fonte que ainda não havíamos percebido. Podemos fazer o mesmo por outra pessoa. Mas só haverá verdadeira impartição se o espaço entre o eu e o tu permanecer livre do desejo de dominar.
O amor abre esse espaço. Não prende o próximo a nós; ajuda-o a encontrar seu próprio caminho diante da fonte.

