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Brasília

Brasília: uma história que começou há dois séculos e ainda não terminou

Uma reflexão escrita em 13 de outubro de 2026, cinquenta anos após a morte de Juscelino Kubitschek.

Há poucos dias, tomei conhecimento de uma notícia que despertou minha curiosidade e me levou a revisitar uma das histórias mais fascinantes do Brasil.

Em maio deste ano de 2026, uma comissão oficial do Estado brasileiro reconheceu que Juscelino Kubitschek, o presidente responsável pela construção de Brasília, morreu em consequência da perseguição política promovida pela ditadura militar.

Cinquenta anos se passaram desde sua morte, em 22 de agosto de 1976.

A notícia me intrigou.

Como poderia o homem que havia construído a capital do Brasil, símbolo de uma nação que pretendia caminhar para o futuro, terminar seus dias perseguido politicamente e morrer em circunstâncias que, meio século depois, ainda seriam objeto de investigação?

Comecei a pesquisar.

E quanto mais avançava, mais percebia que a história de Brasília não se limitava à extraordinária realização de Juscelino.

Ela começara muito antes dele.

Uma ideia que atravessou o Império

Em 1823, José Bonifácio de Andrada e Silva já defendia a construção de uma capital no interior do Brasil.

Durante o reinado de Dom Pedro II, o Visconde de Porto Seguro, Francisco Adolfo de Varnhagen, aprofundou essa ideia, chegando a estudar pessoalmente o Planalto Central.

O próprio imperador recebeu correspondências sobre o projeto.

A República, em 1891, transformou aquela antiga aspiração em previsão constitucional.

Mas a capital ainda não existia.

A ideia parecia esperar por alguém capaz de realizá-la.

O sonho de Dom Bosco

Em 1883, um sacerdote italiano, Dom Bosco, relatou um sonho envolvendo uma região da América do Sul situada entre os paralelos 15 e 20.

Décadas depois, a descrição seria associada ao Planalto Central, onde Brasília seria construída.

A interpretação religiosa enxergou nessa coincidência uma antecipação profética.

A investigação histórica exige cautela: Dom Bosco não mencionou expressamente a construção da capital brasileira.

Ainda assim, é fascinante observar como a tradição espiritual se incorporou à identidade simbólica de Brasília.

O faraó que inspirou Juscelino

Outra descoberta me chamou particularmente a atenção.

Juscelino Kubitschek conhecia a história do faraó Akhenaton, que havia construído uma nova capital no Egito, milhares de anos antes.

JK visitou as ruínas de Akhetaton e, posteriormente, registrou em suas memórias a possibilidade de que sua admiração pelo faraó tivesse alimentado o próprio ideal de construir Brasília.

Surgiram interpretações espiritualistas associando Juscelino a uma possível reencarnação de Akhenaton.

Não existem evidências científicas que comprovem essa hipótese.

Mas existe uma influência histórica documentada.

E isso já é suficiente para uma reflexão: quantas realizações humanas são alimentadas por exemplos que atravessam séculos?

O homem que realizou o impossível

Em 1956, Juscelino assumiu a Presidência da República.

Em 21 de abril de 1960, inaugurou Brasília.

Em menos de quatro anos, uma capital havia surgido no cerrado brasileiro.

Uma realização coletiva, envolvendo trabalhadores, arquitetos, engenheiros, administradores e recursos públicos.

A antiga aspiração de José Bonifácio finalmente se materializava.

Entretanto, o destino político de Juscelino seguiria um caminho inesperado.

O calvário de Juscelino

Após deixar a Presidência, JK permaneceu politicamente ativo.

Com o golpe militar de 1964, teve seus direitos políticos suspensos, perdeu o mandato de senador e enfrentou o exílio.

O homem que havia mobilizado o país para construir sua capital passou a viver sob vigilância e restrições impostas pelo próprio Estado.

Em 22 de agosto de 1976, morreu numa colisão automobilística na Rodovia Presidente Dutra, juntamente com seu motorista, Geraldo Ribeiro.

A versão oficial da época atribuiu o desastre a um acidente.

Durante décadas, surgiram investigações, suspeitas e conclusões divergentes.

Até que chegamos a 2026.

A revelação que nos alcança em 2026

Em 29 de maio deste ano, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos aprovou um relatório reconhecendo Juscelino como vítima de morte violenta decorrente da perseguição política do Estado brasileiro.

A comissão contestou a versão original do acidente e reuniu irregularidades das investigações anteriores, ameaças relatadas e documentos sobre a repressão política.

O reconhecimento é oficial, embora permaneçam questões forenses não esclarecidas, especialmente sobre o mecanismo exato que provocou a perda de controle do veículo.

Não se trata de afirmar que todos os detalhes da morte foram definitivamente resolvidos.

Trata-se de reconhecer que, cinquenta anos depois, uma instituição do Estado brasileiro adotou uma conclusão profundamente diferente daquela apresentada em 1976.

É justamente essa contemporaneidade que me impressiona.

A história que julgávamos encerrada voltou a nos alcançar.

Sarah Kubitschek: a mulher que preservou a memória

Depois da morte de Juscelino, sua esposa, Sarah Kubitschek, assumiu outra missão.

Preservar a memória do marido.

Em 1976, procurou Oscar Niemeyer para idealizar um memorial em Brasília.

O projeto enfrentou resistências políticas e dificuldades de autorização.

Sarah não desistiu.

Mobilizou amigos, empresários, instituições e cidadãos numa campanha de arrecadação que ficou conhecida como “Você constrói o Memorial JK”.

A iniciativa privada teve participação fundamental, embora também tenham existido contribuições e apoio do poder público.

Em 12 de setembro de 1981, o Memorial JK foi inaugurado.

Ali, os restos mortais de Juscelino encontraram seu lugar definitivo.

O homem que construíra Brasília passou a integrar permanentemente sua paisagem.

E a mulher que o acompanhara durante sua trajetória política garantiu que sua memória permanecesse acessível às futuras gerações.

O que essa história nos diz hoje?

Ao reunir esses acontecimentos, percebo uma extraordinária confluência de forças.

A visão política de José Bonifácio.

A investigação territorial de Varnhagen.

O ambiente intelectual do Império de Dom Pedro II.

A interpretação espiritual do sonho de Dom Bosco.

A inspiração que Akhenaton despertou em Juscelino.

A determinação política de JK.

O trabalho de milhares de brasileiros.

A perseverança de Sarah.

E, finalmente, a investigação de 2026, que reabre nossa compreensão sobre a morte do construtor de Brasília.

Não afirmo que uma força sobrenatural tenha coordenado todos esses acontecimentos.

Mas me parece impossível deixar de perceber como determinadas ideias atravessam gerações, encontram novos protagonistas e adquirem significados que seus primeiros idealizadores jamais poderiam imaginar.

Brasília não é apenas uma cidade.

É também o registro material de sonhos, decisões, conflitos, crenças e esforços humanos acumulados ao longo de quase dois séculos.

E há algo particularmente inquietante na descoberta que motivou esta reflexão.

Em 2026, cinquenta anos depois de sua morte, ainda estamos procurando compreender plenamente o destino do homem que realizou aquela obra.

Talvez a história nunca pertença inteiramente ao passado.

Talvez ela continue viva enquanto existirem perguntas que ainda precisamos responder.

Há homens que constroem cidades. Há mulheres que preservam sua memória. E há verdades que precisam atravessar gerações até serem reconhecidas.

Jornada — 13 de outubro de 2026.

José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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