Justiça ou Segurança?
Certa noite perdi o sono. Como acontece tantas vezes com quem atravessa as décadas da vida, a madrugada parece possuir um tempo próprio. Enquanto a cidade dorme, a mente desperta. E foi assim que, diante da televisão, acabei assistindo ao filme brasileiro A Divisão.
Por sinal, um excelente filme.
Há filmes que entretêm. Outros provocam. E há aqueles raros que permanecem conosco após o término dos créditos. A Divisão pertence a esta última categoria.
Inspirado em fatos reais ocorridos no Rio de Janeiro no final dos anos 1990, período em que os sequestros se tornaram uma verdadeira epidemia urbana, o filme retrata a atuação da Divisão Antissequestro da Polícia Civil em meio ao medo social, à pressão política e às ambiguidades do próprio sistema estatal.
Os personagens não são heróis clássicos. São homens marcados pelo sistema, capazes de atos de coragem e de ações moralmente ambíguas. Não há santos. Tampouco há demônios absolutos. Há homens.
Talvez seja exatamente por isso que o filme seja tão interessante: ele nos obriga a olhar para uma questão antiga da política. O que acontece quando a sociedade exige segurança, mas as instituições da justiça parecem insuficientes?
Ao final da trama, uma frase pronunciada por um delegado ficou ecoando em minha mente:
“Vocês querem justiça; nós entregamos segurança.”
A frase é poderosa porque não responde: ela provoca.
Ela nos obriga a perguntar: afinal, o que mais tememos?
A ação da força criminal?
Ou a injustiça?
O jurista alemão Carl Schmitt observava que, nos momentos de crise, as sociedades frequentemente trocam liberdade e justiça pela promessa de ordem e segurança. Quando o medo cresce, aceitamos poderes extraordinários. Quando a violência bate à porta, desejamos ordem.
Mas existe uma questão ainda mais profunda.
A violência nos corrói e massacra o corpo. Sim, dói e mata. Ela deixa cicatrizes, produz luto e espalha o medo entre os vivos. A força criminal é concreta, visível e imediata.
Mas a injustiça agride algo mais profundo: a alma.
Talvez seja esta a razão pela qual os homens temam mais a injustiça do que a própria morte. A morte encerra a vida; a injustiça, muitas vezes, recusa-se a terminar.
Uma morte injusta é eterna.
Os mortos injustiçados raramente desaparecem da história. Transformam-se em sombras permanentes da memória coletiva. Retornam em livros, canções, monumentos, tribunais e revoluções. Continuam falando através das gerações.
Há algo de inquietante nisso: os mortos injustiçados não morrem inteiramente.
Permanecem vivos na consciência dos vivos.
A história humana está repleta desses fantasmas morais. Não fantasmas sobrenaturais, mas memórias que insistem em permanecer. A injustiça produz memória. E a memória recusa-se a morrer.
Talvez seja por isso que os homens aceitem a própria mortalidade, mas se revoltem contra a injustiça.
Porque a morte pertence à natureza. A injustiça, não. Ela é obra humana.
E aquilo que é obra humana pode — e deve — ser julgado pelos homens.
Por isso, talvez o grande dilema das sociedades não seja escolher entre segurança e justiça, mas compreender que uma sem a outra se corrompe.
Segurança sem justiça aproxima-se da força.
Justiça sem segurança aproxima-se da impotência.
O Estado existe para proteger os homens da violência. Mas quem protege os homens da injustiça do próprio Estado?
Talvez esta seja uma das perguntas centrais da civilização.
E aqui apresento minha resposta pessoal.
Se tivesse de escolher, eu preferiria uma morte honrosa a uma morte injusta.
Prefiro a morte justa.
Não conseguiria partir em paz sob o peso de uma injustiça. Haveria algo de inacabado, algo de desordenado, uma ferida aberta entre a consciência e o mundo. Seria uma morte inquieta demais.
Pois uma morte injusta é eterna.
Os mortos injustiçados não morrem.
Habitam a história.
Retornam continuamente à memória dos povos, das famílias e das nações. Tornam-se mártires, símbolos ou advertências. Atravessam gerações.
Talvez porque a justiça não seja apenas uma construção jurídica. Talvez seja uma necessidade espiritual da humanidade.
A segurança protege a vida.
Mas somente a justiça lhe confere sentido.
Apêndice – Ficha Técnica do Filme A Divisão
Título: A Divisão
Ano de lançamento: 2020
Direção: Vicente Amorim
Criação original: José Júnior
Gênero: Policial, suspense e drama
País: Brasil
Idioma: Português
Duração: 134 minutos
Sinopse
Rio de Janeiro, final da década de 1990. Uma onda de sequestros aterroriza a cidade. Após o sequestro da filha de um importante político, a Polícia Civil mobiliza sua Divisão Antissequestro para enfrentar organizações criminosas altamente violentas. A investigação expõe não apenas o submundo do crime, mas também as tensões, corrupção e ambiguidades presentes no próprio aparelho estatal.
Elenco principal
- Silvio Guindane — Delegado Mendonça
- Marcos Palmeira — Delegado Benício
- Erom Cordeiro — Santiago
- Natália Lage — Roberta
- Thelmo Fernandes — Ramos
- Dalton Vigh — Venâncio Couto
- Vanessa Gerbelli — Raquel
Observação do autor
A Divisão não oferece respostas fáceis. Seu mérito talvez esteja justamente nisso: mostrar que, diante do crime, o Estado frequentemente opera numa zona cinzenta, onde segurança e justiça nem sempre caminham juntas.
A frase do delegado — “Vocês querem justiça; nós entregamos segurança.” — resume um dilema que atravessa séculos e permanece atual: afinal, o que os homens mais temem, a violência ou a injustiça?
Talvez a resposta revele muito mais sobre uma sociedade do que imaginamos.


