quarta-feira, 19 agosto 26

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Ame a sua terra natal.

“Brasil: ame-o ou deixe-o?” — Quando a juventude prefere partir

No auge da ditadura militar, o Brasil estampava um slogan por todos os cantos:
“Brasil: ame-o ou deixe-o.”

Era mais que uma frase — era uma ameaça. Um ultimato lançado pelo regime autoritário dos anos 70: quem não concordasse com a pátria oficial, que a abandonasse.

Hoje, esse eco ressurge sob nova forma.
O que antes era imposição, agora virou desejo.
Milhares de jovens brasileiros querem deixar o país.

Mas não por perseguição política.
Simplesmente porque não se sentem mais parte dele.


O abandono silencioso

A juventude brasileira, especialmente de classe média, hoje sonha com a cidadania europeia como passaporte para uma vida com mais dignidade, segurança e oportunidades.

Para muitos, vale até ser imigrante ilegal, trabalhar como entregador, faxineiro ou lavador de pratos, contanto que estejam “fora do Brasil”.

Não é uma fuga heroica, mas uma renúncia silenciosa.

E ela revela uma crise muito mais profunda:
a falência do pertencimento.


Onde falhamos como nação

Ao longo das últimas décadas, o país abandonou os próprios símbolos nacionais.
As escolas deixaram de cultivar o respeito pela bandeira, pelo hino, pelos feriados cívicos.

A educação virou técnica.
A política virou espetáculo.
O civismo virou piada.

A pátria deixou de ser um lar comum e virou um lugar de onde se foge.


Vivemos uma sociedade líquida (sem raízes)

O sociólogo Zygmunt Bauman já alertava:
vivemos em uma “sociedade líquida” — onde tudo escorre, tudo muda, nada permanece.

Essa liquidez chega também à identidade.
Hoje, a maioria dos jovens não se vê mais como brasileiro no sentido profundo do termo. São cidadãos do mundo, conectados, mas desenraizados.

Sem memória estética.
Sem orgulho coletivo.
Sem sentido de origem.


Ciganos e judeus: dois símbolos do desenraizamento

Nessa crise de pertencimento, vale resgatar dois povos simbólicos da história:
os ciganos e os judeus.

Os ciganos (roma) sempre viveram entre fronteiras indefinidas, em movimento, buscando um solo fértil onde plantar suas sementes.
Foram os primeiros a sofrer na escalada nazista.
O mundo nunca lhes deu um lugar fixo.

Já os judeus trilharam outro caminho:
em meio à diáspora, mantiveram viva a promessa de um lar.
Lutaram por um território, por um reencontro físico e espiritual com suas origens.

Ambos os povos representam a alma errante: um pelo exílio forçado, outro pela fé na promessa.


A juventude brasileira: novos nômades do século XXI

Hoje, os filhos da classe média brasileira vivem como novos ciganos:
trabalham nos porões do capitalismo global, em empregos precários, marginalizados, invisíveis nas megalópoles.

Vivem de memórias idealizadas da terra natal.
E mesmo assim, preferem isso a ficar no Brasil.

Mas a que custo?

Pagam com a identidade.
Pagam com o futuro.
Pagam com a alma.


E depois de tudo… voltam para morrer aqui

Na velhice, quando os anos se vão e o corpo já não aguenta mais,
muitos retornam.

Voltam para a terra que abandonaram — não para reconstruí-la, mas para nela serem enterrados.

Sem ter participado da história de sua geração.
Sem ter contribuído para a mudança que esperavam.
Sem ter permanecido.


Conclusão: e se ainda for possível reconstruir o amor à pátria?

Este ensaio não é um apelo romântico ao nacionalismo cego.
É um convite à consciência cívica.

Precisamos voltar a falar de educação patriótica, não como propaganda, mas como reconstrução do sentido de pertencimento.

O Brasil ainda pode ser amado.
Mas só se for reconhecido, cuidado e partilhado.

Antes de partir, talvez devêssemos nos perguntar:
“Será que não estamos enterrando a nós mesmos, ao abandonar a terra que nos viu nascer?”


José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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