Todo domingo de manhã…
…quase como um ritual, caminho pelas bordas da chamada “Feira do Rolo”, aqui em Bauru.
A feira é um mundo à parte.
Um território de trocas silenciosas…
…e de falas baratas — no melhor sentido da expressão.
É ali que o valor das coisas não está no preço.
Mas no uso que ainda se pode fazer delas.
Mesmo quebradas, mesmo cansadas.
Gosto de observar as pessoas…
Mais do que os objetos.
Logo na entrada da feira…
Sempre está ela.
Uma senhora de sorriso largo.
Talvez entre seus cinquenta e tantos… ou sessenta.
Pele escura, alma leve.
Seus livros estão ali, dispostos em pequenos montes.
Espalhados sobre um tecido colorido no chão.
Ao lado, brinquedos antigos…
Bonecas de plástico com olhos fixos no tempo…
E um rádio que talvez ainda fale.
Ela me chama de “meu freguês”.
E eu, sem pressa, me torno mesmo.
Foi em uma dessas idas que ela me disse, com a simplicidade das coisas sérias:
— Infelizmente, eu não sei ler.
— Já tentei de tudo, moço. Não consigo. Mas admiro demais quem consegue.
Fiquei sem palavras…
Como quem tropeça num degrau invisível da realidade.
Ela vende livros…
Mas não lê livros.
— O senhor leu aquele lá, o da capa vermelha que levou semana passada?
— É bonito, né?
Voltei outras vezes.
E ela, sempre atenta, me perguntava dos livros…
Como quem pergunta de filhos que não conhece…
Mas cuida com afeto.
Às vezes me mostrava um título e dizia:
— Esse aqui… sabe dizer do que se trata? Parece importante…
Ela não lê palavras.
Mas lê rostos.
Não decifra frases…
Mas compreende o mundo.
Usa o celular com comando de voz.
Busca informações com agilidade.
Resolve o dia.
E conversa com um respeito raro… pelo saber dos outros.
Eu, como livreiro que sou…
Garimpo bons livros.
Garimpo autores.
Sempre em busca de conhecimento.
Mas… a sabedoria essencial —
Essa que não se escreve —
Está nas experiências.
Nos testemunhos de vida.
No conhecimento de pessoas com suas dificuldades…
E suas superações paradoxais.
E são essas sabedorias que nascem ali…
Na beira do tapete.
No chão da feira.
No gesto simples da entrega.
São diálogos espontâneos…
Sinceros…
Entre o freguês… e a banca.
Acontecem todo domingo.
Como uma missa silenciosa da humanidade.
E eu…
Que me via sentado entre os meus livros…
Em busca de essência e sabedoria…
Percebo…
É o fluxo da vida que nos ensina.
E às vezes…
Ele vem escrito em silêncio.
Ela também empilha livros.
Não sabe o conteúdo.
Mas intui o valor.
Oferece conhecimento…
Como quem oferece fruta boa
Mesmo sem provar, acredita no sabor.
No fim das contas…
Talvez sejamos os dois,
Livreiros de um mundo onde cada um lê… como pode.
E ali, no chão da feira…
Entre livros que ninguém lê…
E histórias que todos vivem…
Eu me dei conta:
🕊️ A sabedoria… não está em decifrar palavras…
…mas em respeitar o que elas significam.
Zé Orlando Witzler. ( Zé Ohh! )

