A Inocência Ficou Para Trás
Há uma frase de Jesus, pronunciada em um dos momentos mais dramáticos de sua passagem pela Terra, que atravessou dois mil anos:
“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”
Lucas 23:34
Jesus estava sendo crucificado.
Ao seu redor havia soldados cumprindo ordens, autoridades defendendo decisões, pessoas observando, outras acusando. Cada uma participava, em diferentes graus, daquele acontecimento.
E Jesus dirige-se a Deus com uma afirmação surpreendente:
eles não sabem o que estão fazendo.
Não significa necessariamente que não soubessem que estavam executando um homem.
Sabiam.
O que não compreendiam era a dimensão daquilo que faziam.
Não enxergavam o todo.
Não possuíam informações suficientes.
Não conseguiam alcançar todas as consequências daquele ato.
Existe nessa frase uma condição profundamente humana:
a limitação do conhecimento limita também nossa compreensão sobre a extensão de nossas próprias ações.
Durante grande parte da história, vivemos assim.
Eu não sabia
Quantas vezes essa frase explicou nossas ações?
Eu não sabia.
Não havia como saber.
Não conhecíamos os efeitos.
Não tínhamos informações.
Não existiam estudos.
Não conhecíamos as consequências.
Não tínhamos acesso.
Durante séculos, grande parte da humanidade viveu dentro de horizontes extremamente pequenos de informação.
Um homem conhecia sua família, sua aldeia, seu trabalho, sua terra e algumas histórias recebidas de seus antepassados.
Aquilo que acontecia a centenas de quilômetros poderia jamais chegar ao seu conhecimento.
A ignorância não era necessariamente uma escolha.
Era uma condição.
Existiam limites físicos para aquilo que um homem poderia conhecer.
Pois bem.
Essa condição está terminando.
Saímos daquele público
A tecnologia está progressivamente nos retirando do público daquela frase:
“Eles não sabem o que fazem.”
Não porque agora saibamos tudo.
Estamos muito longe disso.
Mas porque construímos instrumentos que nos permitem perguntar, pesquisar, verificar, comparar e conhecer numa escala jamais disponível ao homem comum.
Carregamos no bolso acesso a uma parcela gigantesca do conhecimento humano.
Podemos consultar mapas do planeta inteiro.
Conhecer acontecimentos do outro lado do mundo praticamente no momento em que ocorrem.
Pesquisar doenças.
Consultar leis.
Comparar opiniões.
Acessar livros.
Encontrar documentos históricos.
Observar imagens de satélite.
Conversar instantaneamente com pessoas em outros continentes.
E agora acrescentamos a Inteligência Artificial.
Construímos ferramentas capazes de percorrer enormes quantidades de informação e estabelecer conexões em poucos segundos.
A tecnologia não eliminou nossa ignorância.
Mas eliminou grande parte das distâncias que nos separavam do conhecimento.
E isso muda nossa condição.
A inocência começa a ficar para trás
Existe uma consequência pouco discutida nesse processo.
Quanto maior nossa possibilidade de saber, maior nossa responsabilidade de procurar saber antes de agir.
Essa mudança é profunda.
Não saber quando não havia possibilidade de saber é uma coisa.
Escolher não saber quando a informação está disponível é outra.
Não conhecer as consequências porque eram imprevisíveis é uma coisa.
Ignorar deliberadamente consequências conhecidas é outra.
Repetir uma informação falsa quando não existiam meios para verificá-la é uma coisa.
Compartilhá-la em segundos sem sequer procurar sua origem é outra.
A tecnologia não apenas nos deu ferramentas.
Ela retirou algumas de nossas desculpas.
Chegamos à maioridade tecnológica
O homem sempre desejou saber.
Criamos a escrita para preservar conhecimento.
Criamos bibliotecas para armazená-lo.
Criamos universidades para organizá-lo.
Criamos a imprensa para distribuí-lo.
Criamos computadores para processá-lo.
Criamos a internet para conectá-lo.
E agora criamos Inteligência Artificial para nos ajudar a navegar por ele.
Cada etapa aumentou nossa capacidade.
E cada aumento de capacidade trouxe consigo uma responsabilidade correspondente.
Chegamos a uma espécie de maioridade tecnológica.
E chegar à maioridade significa justamente isso:
perder determinadas inocências.
Da criança aceitamos:
“Eu não sabia.”
Do adulto perguntamos:
“Por que você não procurou saber?”
O homem tecnológico
O homem de hoje possui uma característica inédita.
Ele é pequeno biologicamente e gigantesco tecnologicamente.
Continua sendo uma pessoa diante de uma tela.
Mas suas ações podem alcançar milhares ou milhões de outras pessoas.
Um clique pode movimentar dinheiro.
Uma publicação pode destruir uma reputação.
Uma compra pode alimentar uma tendência.
Uma informação pode provocar uma corrida.
Uma imagem pode atravessar o planeta.
Uma mentira pode encontrar milhões de pessoas antes que a verdade consiga colocar os sapatos.
E continuamos dizendo:
“Foi apenas um compartilhamento.”
“Foi apenas um comentário.”
“Foi apenas uma compra.”
“Foi apenas um clique.”
Não existe mais “apenas um clique” dentro de uma rede formada por bilhões de pessoas.
Estamos conectados.
Estamos em uma teia.
E cada movimento produz algum efeito sobre ela.
A IA aumenta ainda mais essa responsabilidade
A Inteligência Artificial acrescenta uma nova camada.
Ela reduz drasticamente o esforço necessário para procurar conhecimento.
Uma pessoa pode fazer uma pergunta que anteriormente exigiria horas de pesquisa.
Pode comparar argumentos.
Pode pedir explicações.
Pode solicitar contrapontos.
Pode procurar fontes.
Pode organizar informações.
Pode questionar suas próprias conclusões.
Isso não significa que a resposta da máquina seja necessariamente correta.
Pelo contrário.
A própria utilização da IA exige verificação, discernimento e responsabilidade.
Mas uma coisa mudou definitivamente:
ficou muito mais fácil perguntar.
E quando perguntar fica fácil, aumenta nossa responsabilidade de perguntar antes de afirmar.
Quando verificar fica fácil, aumenta nossa responsabilidade de verificar antes de compartilhar.
Quando conhecer outras posições fica fácil, diminui nossa justificativa para conhecer apenas aquilo que confirma nossas próprias convicções.
A ferramenta está diante de nós.
O que faremos com ela passa a ser responsabilidade nossa.
Saber não significa compreender
Existe ainda um problema.
Ter acesso ao conhecimento não significa possuir sabedoria.
Podemos saber muito e compreender pouco.
Podemos possuir informações extraordinárias e tomar decisões medíocres.
Podemos utilizar a tecnologia apenas para reforçar preconceitos.
Podemos perguntar somente aquilo cuja resposta desejamos ouvir.
Podemos utilizar a Inteligência Artificial para construir argumentos sofisticados para decisões que já havíamos tomado emocionalmente.
A tecnologia pode combater parte de nossa ignorância.
Não consegue nos obrigar a amadurecer.
Esse trabalho continua sendo humano.
A nova pergunta
Aquela frase pronunciada há dois mil anos permanece:
“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”
Ela continua profundamente humana.
Continuaremos errando.
Continuaremos desconhecendo inúmeras coisas.
Continuaremos incapazes de compreender completamente as consequências de nossas ações.
Mas existe uma diferença.
Construímos instrumentos extraordinários para diminuir nossa ignorância.
Por isso uma nova pergunta começa a acompanhar o homem tecnológico:
E quando podemos saber?
Quando temos acesso?
Quando podemos perguntar?
Quando podemos verificar?
Quando podemos comparar?
Quando podemos conhecer as consequências?
Quando podemos ouvir o outro lado?
Quando a informação está diante de nós e escolhemos não conhecê-la?
Nesse momento, alguma coisa muda.
A ignorância deixa de ser apenas uma condição.
Pode se transformar em escolha.
E uma ignorância escolhida possui um peso diferente.
A inocência ficou para trás
Durante milhares de anos caminhamos tentando compreender o mundo.
Agora carregamos uma parte extraordinária desse conhecimento em nossas mãos.
Não sabemos tudo.
Nunca saberemos.
Mas sabemos muito mais.
E, principalmente, podemos procurar saber muito mais.
Essa diferença marca nossa passagem para a maturidade tecnológica.
A tecnologia nos deu potência.
A internet nos deu alcance.
A Inteligência Artificial está nos dando uma capacidade inédita de acesso e conexão entre informações.
Agora vem a parte difícil.
Responder pelo que faremos com tudo isso.
A inocência não desapareceu porque nos tornamos maus.
Ela ficou para trás porque nos tornamos capazes.
E capacidade produz responsabilidade.
Há dois mil anos ecoou uma frase:
“Eles não sabem o que fazem.”
O homem tecnológico precisa ter coragem para fazer uma pergunta diferente:
E nós, que agora temos tantos meios para saber, sabemos o que estamos fazendo?
Pense nisso.

