quarta-feira, 19 agosto 26

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Viva o Rei.

A coroa está perdida.

Rolando pela sarjeta, misturada às coisas que ninguém mais considera importantes.

As pessoas passam.

Algumas desviam.

Outras nem percebem.

Uma criança poderia chutá-la pensando tratar-se de algum objeto deixado depois de uma festa.

Ninguém se abaixa para recolhê-la.

Ninguém pergunta a quem pertenceu.

Ninguém parece disposto a descobrir quanto vale.

Afinal, para que serve uma coroa?

Mas é Carnaval.

E no Carnaval podemos brincar com quase tudo.

Podemos transformar nossas virtudes em fantasias e nossos defeitos em alegorias. Podemos rir dos poderosos, coroar os anônimos, vestir o pobre de rei e colocar o rico para desfilar de mendigo.

Durante alguns dias, o mundo aceita ficar de cabeça para baixo.

Então aquela coroa abandonada encontra finalmente alguma utilidade.

Precisamos de um Rei Momo.

Que seja alegre.

Bonachão.

Sorridente.

Que saiba dançar, brincar e receber os foliões.

Nada de discursos demasiadamente sérios.

Nada de decretos.

Nada de decisões de Estado.

Sua Majestade terá uma missão muito mais agradável: declarar aberto o Carnaval.

Entregamos-lhe simbolicamente as chaves da cidade.

Colocamos a coroa sobre sua cabeça.

Ao seu lado, uma rainha.

Também coroada.

O cortejo pode começar.

Durante alguns dias teremos novamente rei e rainha.

Mas desta vez ninguém confundirá a fantasia com o poder.

Eles abrirão oficialmente a festa.

Receberão as homenagens.

Serão fotografados.

Dançarão.

Sorrirão.

E cumprirão uma função que considero importante: haverá alguém para abrir o cortejo e alguém para encerrá-lo.

Porque até a brincadeira precisa saber quando começa.

E, principalmente, quando termina.

Chegada a quarta-feira, o Rei Momo devolverá as chaves.

A rainha retirará sua coroa.

Os instrumentos silenciarão.

As fantasias serão guardadas.

As ruas serão lavadas.

E nossa velha coroa poderá voltar para a sarjeta.

É uma cena curiosa.

Passamos alguns dias brincando de ter reis.

Não sei exatamente do que estamos rindo.

Se estamos festejando nossas irresponsabilidades.

Se estamos utilizando o Carnaval para satirizar o poder.

Ou se existe, escondida dentro da brincadeira, uma antiga memória coletiva de que um dia tivemos reis.

Porque a humanidade possui uma relação estranha com coroas.

Passamos séculos tentando derrubá-las.

E continuamos fabricando outras.

Coroamos o campeão.

Coroamos a rainha da festa.

Coroamos o vencedor.

Coroamos o melhor.

Coroamos até o Carnaval.

Parece existir em nós uma vontade permanente de colocar alguém acima da multidão e dizer:

— Eis aquele que nos representa.

A questão fica mais interessante quando descobrimos que essa discussão é muito mais antiga do que nossas monarquias, nossas repúblicas e nossos carnavais.

Está na Bíblia.

No Primeiro Livro de Samuel encontramos um povo diante de um problema político.

Israel era conduzido por juízes.

Mas os israelitas olharam para os povos ao redor e perceberam que as outras nações tinham reis.

E então fizeram um pedido a Samuel:

Queremos também um rei.

Queremos alguém que nos governe.

Queremos ser como as outras nações.

Samuel não recebeu bem o pedido.

Levou a questão a Deus.

E a resposta é uma das passagens mais intrigantes da reflexão bíblica sobre o poder.

Deus permite que tenham um rei.

Mas manda Samuel adverti-los.

O rei tomaria seus filhos para seus exércitos e seus serviços.

Tomaria suas filhas.

Tomaria parte de suas terras, suas colheitas e seus rebanhos.

Criaria sua estrutura.

Manteria seus servidores.

Exigiria recursos para sustentar seu poder.

Em outras palavras:

vocês querem um rei; então compreendam o preço de possuir um rei.

Mesmo advertidos, insistiram.

Queriam ser como as outras nações.

E receberam Saul.

Um homem escolhido, ungido e elevado acima dos demais.

Saul começou sua história carregando a legitimidade de uma coroa que ainda nem existia materialmente como a imaginamos.

Mas possuir autoridade e saber carregá-la são coisas diferentes.

O poder começou a revelar suas próprias exigências.

Vieram as guerras.

Vieram as decisões.

Vieram os conflitos.

Vieram a desobediência e a ruptura.

E o primeiro grande experimento monárquico de Israel terminou no drama de Saul.

Séculos passaram.

Impérios nasceram.

Impérios desapareceram.

Reis foram coroados.

Reis foram decapitados.

Imperadores foram expulsos.

Repúblicas foram proclamadas.

Presidentes substituíram monarcas.

E continuamos discutindo quem deve governar quem.

Por isso olho novamente para aquela coroa.

Continua ali.

Na sarjeta.

É Carnaval.

Alguém a recolhe.

Sacode a poeira.

Limpa um pouco.

Coloca-a sobre a cabeça de um homem alegre e bonachão.

A multidão aplaude.

Viva o Rei Momo!

Entregamos-lhe as chaves da cidade.

Ao seu lado colocamos uma rainha.

A música começa.

O cortejo passa.

Durante alguns dias todos sabem que aquele rei é apenas uma brincadeira.

E ninguém parece preocupado.

Porque sabemos exatamente quando seu reinado terminará.

Na quarta-feira ele devolverá as chaves.

Retirará a coroa.

Voltará para casa.

E a cidade retomará sua vida.

Samuel, tantos séculos atrás, ouviu um povo pedir seriamente aquilo que nós, durante alguns dias do ano, escolhemos representar como brincadeira:

— Dá-nos um rei.

E Deus permitiu.

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José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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