A vida está sempre sob pressão
Certa vez fomos fazer uma pescaria em alto-mar. A viagem era longa e a melhor isca era o camarão vivo.
O problema era mantê-lo vivo durante todo o dia.
Tentávamos trocar a água, manter o recipiente fresco e criar as melhores condições possíveis. Mesmo assim, depois de algum tempo, os camarões começavam a morrer.
Em uma dessas pescarias, levamos alguns siris no mesmo recipiente.
Siri gosta de camarão.
Durante todo o dia eles incomodavam os camarões, que precisavam fugir constantemente. Curiosamente, naquele dia os camarões permaneceram vivos.
Lembro dessa história quando penso em uma ideia presente no pensamento de Teilhard de Chardin: a vida está sempre sob pressão.
Basta olhar para a Terra.
Até onde sabemos, estamos sozinhos. Em meio a uma imensidão de estrelas e planetas, toda a vida que conhecemos está concentrada nesta pequena camada ao redor de um único planeta.
E nunca foi uma vida tranquila.
Desde os organismos mais simples, viver significa enfrentar mudanças de temperatura, falta de alimento, doenças, predadores, competição e transformações do próprio ambiente.
A vida responde.
Adapta-se.
Procura novos espaços.
Continua.
Existe nisso um paradoxo extraordinário.
A vida sobre a Terra demonstra uma força impressionante. Atravessou milhões de anos enfrentando enormes transformações.
Mas a minha vida individual é frágil.
A sua também.
Somos bilhões de seres humanos, construindo cidades, formando famílias, criando máquinas, fazendo ciência e olhando para o espaço em busca de outros seres.
Somos uma multidão e, ao mesmo tempo, somos terrivelmente solitários.
Somos terráqueos.
Toda a nossa história aconteceu aqui.
Todos os nossos antepassados viveram aqui. Todas as nossas músicas foram compostas aqui. Todas as guerras foram travadas aqui. Todas as crianças que conhecemos nasceram aqui.
E continuamos vivendo sob pressão.
Também em nossa pequena existência diária.
O problema que aparece. A pessoa que nos contraria. O concorrente que nos obriga a melhorar. O erro que precisamos corrigir. A idade que chega. O tempo que passa.
São os siris da vida.
Eles incomodam.
Beliscam.
Obrigam o camarão a continuar nadando.
Por isso, de vez em quando, quando algum siri aparece novamente em minha vida, lembro daquela pescaria.
E lembro também de uma frase que escutei há muito tempo:
“Amai os vossos inimigos.”
E o camarão continua nadando.

