Por José Orlando Witzler
Há alguns anos — ou melhor, há cerca de quinze anos — recebi a visita de um amigo engenheiro. Conversamos sobre muitos assuntos, como fazem os velhos amigos: tecnologia, trabalho, família e, em algum momento, chegamos a um problema universal da era digital: senhas.
Comentei que utilizava um método próprio para memorizar números, convertendo-os em letras e depois reconvertendo-os mentalmente. Para isso, usava uma palavra muito conhecida, com uma característica curiosa: possuía exatamente dez letras, sem repetir nenhuma delas. Por razões óbvias, não revelarei qual era a palavra.
Apresentei a ideia ao colega e a conversa seguiu seu curso natural.
A vida passou.
Mudaram-se os anos, os telefones, as cidades digitais e até algumas tecnologias. Não nos encontramos mais.
Quinze anos depois, inesperadamente, a esposa desse amigo ligou para minha esposa. Durante a conversa, ele tomou o telefone e, sem qualquer introdução, disse:
— José, finalmente encontrei outra palavra com dez letras, sem repetir nenhuma!
Confesso que sorri.
Percebi naquele instante que aquela pequena questão havia permanecido viva em sua mente durante quinze anos.
Quinze anos.
Não continuamente, é claro. Mas em algum lugar silencioso da memória, aquela pergunta permanecia aberta, aguardando solução.
Talvez isso revele algo profundo sobre a natureza humana.
Nossa mente não trabalha para esquecer.
Ela trabalha para fechar circuitos.
A psicologia dá a esse fenômeno o nome de Efeito Zeigarnik: a tendência de lembrar e manter ativas tarefas, perguntas ou situações inacabadas.
Em outras palavras, o cérebro não gosta de pontas soltas.
Quando algo permanece sem explicação, cria-se uma espécie de pendência mental. O assunto continua rodando em segundo plano, às vezes por anos, até que uma resposta seja encontrada — ou até que aprendamos a conviver com sua ausência.
Quem nunca viveu isso?
Uma conversa interrompida.
Um mistério histórico.
Uma injustiça.
Uma dúvida filosófica.
Uma pergunta aparentemente simples:
“O que realmente aconteceu?”
E então a mente retorna ao tema repetidas vezes, como um satélite em órbita de uma pergunta não respondida.
Talvez sejamos menos movidos por respostas do que por lacunas.
Nossa consciência parece funcionar como uma máquina de completar elos.
Ela busca causas.
Busca explicações.
Busca sentido.
Entretanto, vivemos numa época peculiar.
Nunca tivemos acesso a tanta informação.
E, paradoxalmente, nunca convivemos com tantas incertezas.
Recebemos fragmentos de notícias, vídeos curtos, manchetes, opiniões e dados em quantidade jamais vista. Porém, frequentemente faltam os elos que conectam os fatos.
E onde existem lacunas, surgem narrativas.
Algumas são verdadeiras.
Outras, não.
Talvez seja por isso que teorias conspiratórias encontrem terreno fértil em tempos de incerteza. Elas oferecem algo que a mente aprecia profundamente: fechamento.
Mesmo quando faltam evidências.
Mesmo quando a realidade é mais complexa.
Recentemente, um amigo escreveu em um grupo de mensagens algo que me chamou atenção:
“Para preservar minha lucidez, preciso aceitar que não sei algo e que não preciso saber.”
A frase parece simples, mas talvez contenha uma grande sabedoria.
Existe uma diferença entre buscar a verdade e tornar-se prisioneiro da necessidade de resposta.
Nem toda pergunta encontrará solução.
Nem toda lacuna será preenchida.
Talvez parte da maturidade intelectual consista em saber investigar sem enlouquecer; procurar sem se perder; perguntar sem exigir que o universo responda imediatamente.
Afinal, a história da humanidade é também a história de perguntas abertas.
Algumas foram respondidas.
Outras permanecem em espera.
E talvez a verdadeira lucidez esteja em equilibrar duas forças igualmente humanas: a curiosidade incansável e a serenidade diante do mistério.
Porque, no fundo, nossa mente sempre sussurra diante do desconhecido:
“Tem mais isso.”

