sexta-feira, 21 agosto 26

Top 5 semana

Posts Relacionados

Não há privilegio na escolha.

Chamado à Missão Não É um Privilégio: a Luta Inútil de Quem Já Era Escolhido

Por Jose Orlando Witzler – jornada.blog.br

“Não te chamas mais Jacó, mas Israel, pois lutaste com Deus e com os homens, e venceste.”
— Gênesis 32:28

O drama do povo de Israel e, por extensão, de todos os que se percebem “escolhidos” repousa sobre um equívoco persistente: imaginar que a eleição é um título de glória, e não uma atribuição de responsabilidade.

Desde os tempos de Abraão, o chamado do povo hebreu foi claro: abençoar todas as famílias da terra (Gênesis 12:3). Ser o canal por onde o conhecimento do Deus único, criador e compassivo, se tornaria acessível aos povos. Essa eleição não era para exclusividade territorial, étnica ou intelectual, mas para serviço, mediação e luz para as nações (Isaías 42:6).

Contudo, como tantas vezes na história humana, a missão foi mal interpretada como privilégio. Israel se fechou, não sem razão, diante da opressão das nações. Mas essa defesa se tornou um cárcere espiritual. Perdeu-se a visão do fluxo universal da graça, trocada por disputas territoriais e identitárias que permanecem até hoje.

Jacó: a luta inútil com Deus

No momento mais emblemático dessa crise de identidade espiritual, encontramos Jacó, o patriarca cuja história de espertezas e fugas culmina numa noite misteriosa: ele luta com Deus às margens do rio Jaboque (Gênesis 32).

A cena é emblemática: Jacó já fora abençoado no ventre, desde o início já era parte da aliança. Mas ainda não se via digno. Ainda não confiava na promessa. E, assim, confronta a graça com o próprio esforço luta contra Deus por uma bênção que já lhe fora dada.

Essa imagem retrata o coração da humanidade: lutamos com Deus, resistimos ao chamado, tentando conquistar com suor aquilo que deveria fluir com rendição.

E qual o resultado? Ele sai mancando. A bênção vem, mas a custo de dor. Jacó é rebatizado como Israel, aquele que luta com Deus um nome que é ao mesmo tempo vitória e cicatriz.

Quantas vezes também nós, povos e indivíduos, repetimos esse padrão? Lutamos com nosso destino, confrontamos nossa vocação, desviamos do caminho da partilha e do serviço, atrasando o fluxo da graça que deveria passar por nós rumo ao mundo.

A Missão Universal: não para si, mas para todos

Deus não chamou Israel para possuir, mas para servir. Não para dominar, mas para revelar. A eleição foi para mediação, não para exclusão. O verdadeiro sentido da “terra prometida” era espiritual: um espaço simbólico de presença divina, não um mapa político ou uma propriedade.

Quando Israel se esqueceu disso, perdeu-se na luta política, na fragmentação tribal e na esperança de um Messias guerreiro. Mas o Messias veio, e veio como servo, como luz, e não como conquistador. Ele lavou pés, não levantou espada.

Jesus retoma a missão original: “Vós sois a luz do mundo.” (Mateus 5:14). Não há privilégio aqui — há encargo, envio, missão. E não só para Israel, mas agora para toda a humanidade reconciliada.

Abraçar a missão é deixar de lutar

Jacó lutou à toa. O que ele mais queria ser aceito, ser abençoado já estava garantido pela promessa. A luta era desnecessária. Mas essa luta nos ensina que o atraso espiritual e social da humanidade muitas vezes nasce da resistência ao chamado divino.

Somos todos chamados não para acumular bênçãos, mas para ser canal delas. A eleição, quando compreendida como serviço, liberta. Quando vista como privilégio, aprisiona.

O mundo espera por aqueles que deixam de lutar com Deus e decidem caminhar com Ele.
O verdadeiro povo escolhido é aquele que escolhe não mais resistir ao fluxo da missão.


Referências:

  1. Gênesis 12:1-3 – Chamado de Abraão para abençoar todas as famílias da terra.
  2. Gênesis 32:22-32 – Jacó luta com Deus e recebe o nome de Israel.
  3. Isaías 42:6; 49:6 – Missão de Israel como luz para os gentios.
  4. Mateus 5:14 – Jesus reafirma a missão de ser luz do mundo.
  5. Romanos 9–11 – Paulo reflete sobre a vocação de Israel e a abertura aos gentios.
  6. Abraham Heschel – Deus em busca do homem (obra central sobre o papel espiritual de Israel).

Artigo anterior
Próximo artigo
José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

2 COMENTÁRIOS

  1. A luta de Jacó com Deus foi um evento que revela ao mundo o empenho dum ser humano de receber a bênção de Deus. O objetivo dele não era vencer o invencível mas vencer a sí mesmo no empenho de alcançar a bencao do todo poderoso. E por isso foi elogiado. É um exemplo para nós hoje em dia, quando vivemos num mundo onde se comemora o empenho em se dar bem numa faculdade, mas não o fato de servir a Deus e ao proximo.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Popular Articles