
O amor é o meio do “entre”
Onde acontece a impartição?
Durante muito tempo, procurei entendê-la olhando para aquilo que uma pessoa possui: um dom, uma sabedoria, uma capacidade de agir. Mas possuir um dom não basta. Um potencial pode permanecer adormecido durante toda a vida. Para que algo flua, é preciso que exista alguém diante de nós.
Há o eu e há o tu. Entre os dois existe um espaço. Atravessamos esse espaço todos os dias, muitas vezes sem perceber ninguém. Podemos dividir a mesma casa, sentar à mesma mesa e permanecer distantes.
A palavra próximo revela essa diferença. Como adjetivo, ela indica uma distância: alguém está perto de mim. Como substantivo, o próximo é uma pessoa cuja existência reconheço. Estar perto cria a possibilidade do encontro. Prestar atenção é o primeiro passo para vivê-lo.
A impartição se parece com a luz: para ser percebida, precisa encontrar abertura. Seu fluxo é sensível e sutil. Às vezes, uma conversa começa sem promessa alguma e, de repente, vira. Uma palavra encontra seu lugar. Um gesto de cuidado é acolhido. Algo acontece naquele espaço que não pertence inteiramente a nenhuma das duas pessoas.
A tecnologia oferece uma imagem curiosa para isso. Dois dispositivos Bluetooth podem estar próximos sem estabelecer uma conexão. É preciso que se tornem detectáveis e que haja emparelhamento. Entre pessoas, a proximidade também não garante o encontro. Podemos estar ao alcance uns dos outros e continuar invisíveis.
Mas a analogia tem um limite decisivo: pessoas não são dispositivos. Ninguém pode ativar a abertura do outro por comando. O encontro pede atenção, confiança, liberdade e, às vezes, tempo. Quando dizemos no cotidiano “não virou”, talvez estejamos percebendo que a conexão não encontrou passagem. Isso não significa que alguém falhou. Pode ser que não tenhamos escutado bem; pode ser que o outro não esteja pronto; pode ser, simplesmente, que não seja aquele o momento.
Quando a distância da indiferença diminui, abre-se o “entre”. É o espaço vivo da relação entre o eu e o tu. Mas nem toda aproximação permite que nele aconteça a impartição. Podemos chegar perto para julgar, convencer, controlar. Podemos chamar de ajuda uma oferta que cobra obediência.
O amor é o meio do “entre”.
É ele que nos permite ver o outro sem querer possuí-lo. O amor ilumina sem invadir. Não elimina o discernimento nem impede uma conversa honesta, mas recusa o julgamento que reduz uma pessoa aos seus erros e a manipulação que tenta conduzi-la contra sua vontade.
Começo, então, a compreender a impartição como o encontro em que alguém, tendo reconhecido uma fonte de graça, se aproxima e a apresenta ao outro. Não chega como dono da fonte. Talvez ofereça uma palavra, uma escuta, um gesto ou um convite: venha ver. O tu permanece livre para acolher, questionar ou seguir seu caminho.
A visão reconhece o próximo. O pensamento procura discernir o que aquele encontro pede. A intenção amorosa nos move. A ação dá forma à intenção. E o fluxo acontece quando o que recebemos deixa de ficar encerrado em nós e alcança outra vida sem aprisioná-la.
Na minha compreensão espiritual, esse “entre” pode ser lugar da ação do Espírito Santo. Não porque saibamos provocar sua presença ou garantir um resultado, mas porque podemos nos dispor a amar. Às vezes, o fruto será discreto: alguém recupera a coragem, percebe uma possibilidade ou simplesmente sente que não está só.
Talvez a pergunta mais importante não seja “qual é o meu dom?”, mas “consigo me fazer próximo e permanecer aberto ao outro?”
A impartição não é um poder que imponho. É a graça que encontra passagem no espaço entre duas pessoas. Quando o amor nos torna visíveis um ao outro, o encontro pode acontecer. E, às vezes, vira.

