Profetas do futuro
O equívoco de entregar ao Judiciário o futuro da sociedade
Quando tudo termina no Judiciário, é provável que muita coisa tenha deixado de ser feita antes.
Essa talvez seja uma das marcas mais evidentes de nosso tempo. Diante de uma tragédia, de um escândalo de corrupção ou de uma nova ameaça tecnológica, nossa primeira reação é procurar os culpados. Queremos saber quem será investigado, quem será condenado e quantos anos de prisão serão aplicados.
Essa busca é necessária. A impunidade destrói a confiança e estimula novas transgressões. Mas existe um equívoco em acreditar que a punição, sozinha, possa corrigir aquilo que a sociedade não soube prevenir.
O Judiciário começa a trabalhar, em grande medida, quando alguma coisa já aconteceu. O dinheiro foi desviado. A barragem rompeu. O algoritmo discriminou. Os dados foram utilizados. A obra caiu. As vítimas apareceram.
Então chegam os processos, as perícias, as comissões, as audiências e as sentenças. Procuramos os responsáveis, calculamos os prejuízos e contamos os mortos.
Mas quem deveria ter chegado antes?
A era do Judiciário
Vivemos uma espécie de “era do Judiciário”. Transferimos aos tribunais problemas que deveriam ter sido enfrentados anteriormente pela política, pela administração pública, pela educação, pelos órgãos de controle e pela própria sociedade.
Não porque os juízes tenham necessariamente tomado para si o futuro, mas porque outras instituições parecem ter desistido de planejá-lo.
Esperamos que o Judiciário resolva a corrupção, discipline as novas tecnologias, reorganize políticas públicas e corrija os conflitos sociais. Exigimos que ele encontre, nos textos existentes, respostas para realidades que ainda não existiam quando as leis foram escritas.
Mas o Judiciário não foi concebido para projetar sozinho o futuro da sociedade. Sua função é indispensável: interpretar as normas, proteger direitos, examinar provas, controlar a legalidade e responsabilizar aqueles que transgrediram a lei. Entretanto, sua atuação é predominantemente posterior aos fatos.
O juiz olha para o passado porque precisa descobrir o que aconteceu. A sociedade, porém, precisa de instituições que também sejam capazes de olhar para aquilo que ainda pode acontecer.
Quando transformamos todo problema político, moral, administrativo ou tecnológico em um problema exclusivamente judicial, não fortalecemos necessariamente a Justiça. Podemos apenas estar escondendo nossa incapacidade de prevenção.
A punição não substitui a prevenção
Criamos a expectativa de que punições exemplares seriam capazes de controlar a sociedade. É como se a severidade da sentença pudesse eliminar a origem do crime.
Não pode.
A punição continua necessária, mas possui limites. Por mais duras que sejam as penas, continuarão existindo crimes. A experiência mostra, inclusive, que a certeza de descoberta e responsabilização tende a produzir maior efeito preventivo do que o simples aumento da severidade das penas.
Não precisamos de punições transformadas em espetáculo. Precisamos de consequências certas, proporcionais e tempestivas. E, principalmente, de instituições capazes de reduzir as oportunidades para que a transgressão aconteça.
Ajuda tardia ainda pode socorrer. Justiça tardia ainda pode responsabilizar. Mas nenhuma delas consegue impedir aquilo que já aconteceu, devolver integralmente aquilo que foi perdido ou ressuscitar aqueles que morreram.
Quando a prevenção desaparece, a sentença corre o risco de se transformar apenas no relatório final da catástrofe.
Os profetas do passado
Formamos excelentes especialistas em fatos consumados.
Depois do desastre, todos parecem conhecer suas causas. Surgem os comentaristas, os relatórios, as entrevistas e as explicações definitivas. Aquilo que ninguém percebeu antes passa a parecer óbvio depois.
Produzimos verdadeiros profetas do passado: pessoas capazes de anunciar, com impressionante segurança, tudo aquilo que já aconteceu.
Criamos também excelentes contadores de mortos e “matracas de velório”: vozes ruidosas que, diante da tragédia consumada, repetem que tudo poderia ter sido evitado.
Esperamos a ponte cair para vistoriar as demais. Esperamos a enchente para discutir drenagem. Esperamos o desvio transformar-se em escândalo para examinar os controles. Esperamos a tecnologia produzir suas vítimas para começar a discutir seus limites.
Somos uma sociedade reativa, permanentemente atrasada diante dos próprios riscos.
O planejamento parece caro enquanto nada acontece. A prevenção parece exagerada enquanto o perigo permanece apenas como possibilidade. Depois da tragédia, descobrimos que caro foi não ter planejado e exagerada era apenas nossa confiança.
As transgressões que ainda não possuem nome
O problema torna-se ainda mais evidente diante das novas tecnologias.
Entre o surgimento de uma tecnologia, a percepção de seus riscos e a criação de uma legislação adequada existe um intervalo perigoso. Nesse espaço, práticas socialmente destrutivas podem ainda não possuir uma definição jurídica específica.
Nem toda transgressão começa como crime. Primeiro, ela pode aparecer como risco. Depois, como abuso. Em seguida, como dano coletivo. Somente então a sociedade encontra palavras jurídicas para reconhecê-la.
Inteligências artificiais, decisões automatizadas, manipulação de comportamentos, vigilância permanente e utilização indiscriminada de dados podem criar situações que as leis anteriores não imaginaram plenamente.
E aqui o Judiciário encontra um limite fundamental: não pode inventar retroativamente um crime para punir uma conduta que a lei ainda não havia definido como criminosa. Pode aplicar princípios existentes, proteger direitos e reconhecer responsabilidades civis ou administrativas quando houver fundamento. Mas não pode criar no presente a lei penal que a política deixou de formular no passado.
Assim, entregamos ao juiz uma pergunta que deveria ter sido enfrentada muito antes:
Quem será responsabilizado pelo futuro que não tivemos coragem de planejar?
Uma educação que não ensina a antecipar
Parte dessa dificuldade começa em nossa própria educação.
Aprendemos a memorizar respostas para problemas conhecidos, mas raramente somos ensinados a formular perguntas sobre aquilo que ainda não aconteceu. Pouco exercitamos o planejamento, a construção de cenários, a análise de riscos, a avaliação das consequências e a preparação de contingências.
Somos educados para responder à prova, não para perceber os sinais.
Uma sociedade preparada para o futuro deveria ensinar suas crianças, seus profissionais e seus governantes a perguntar:
O que pode dar errado? Quais serão as consequências? Quem poderá ser atingido? Que sinais aparecerão antes da falha? Existe redundância? Qual será o plano de resposta? E, principalmente, o que podemos fazer agora?
Essas não são perguntas pessimistas. São perguntas responsáveis.
Não se trata de viver com medo da catástrofe, mas de impedir que a confiança se transforme em cegueira.
O engenheiro como profeta do futuro
O engenheiro é, por formação, uma espécie de profeta do futuro.
Ele projeta aquilo que ainda não existe, calcula cargas que ainda não foram aplicadas e imagina falhas que ainda não aconteceram. Trabalha com margens de segurança, redundâncias, probabilidades e contingências. Seu objeto não é apenas o que existe, mas aquilo que poderá existir se determinadas condições se encontrarem.
Seu planejamento pode falhar. Nenhum cálculo domina completamente a realidade e nenhum projeto elimina todos os riscos. Ainda assim, o engenheiro aprende a navegar por mares nunca navegados. Quando erra, precisa incorporar a falha ao próximo projeto.
O jurista tradicionalmente trabalha em outro tempo. Apoia-se na lei existente, nos fatos ocorridos e nos precedentes acumulados. Precisa olhar para trás para decidir com segurança. Por isso, pode encontrar dificuldade diante de territórios nos quais a tecnologia já chegou, mas a lei ainda não desembarcou.
Não se trata de afirmar que engenheiros enxergam tudo e juristas nada antecipam. Tampouco de substituir o Direito pela engenharia. O engenheiro sem limites éticos pode construir a própria catástrofe. O jurista que chega apenas depois poderá descrevê-la, procurar os responsáveis e contar suas vítimas.
Precisamos dos dois, trabalhando no mesmo tempo.
Levar o Direito a bordo
Talvez nosso maior equívoco seja convocar o Direito somente depois que a máquina foi ligada, o algoritmo começou a decidir, a obra apresentou falhas ou o dano produziu suas vítimas.
Precisamos levar o jurista para dentro do projeto. Não para impedir toda inovação, mas para ajudar a perguntar, desde o início, a quem ela serve, quais direitos pode ameaçar e quais limites precisam ser estabelecidos.
Da mesma forma, precisamos levar o engenheiro, o cientista, o educador e o especialista em riscos para dentro da política. As leis não podem continuar sendo produzidas apenas como respostas emocionais às últimas tragédias. Precisam nascer também da observação dos sinais, da construção de cenários e da avaliação das possibilidades.
A sociedade do futuro precisará reunir a capacidade de projetar do engenheiro, a prudência do jurista, a visão do educador e a legitimidade da política.
Não para eliminar todos os riscos, porque isso seria impossível. Mas para reconhecê-los enquanto ainda são possibilidades, antes que se transformem em estatísticas, processos e nomes gravados em memoriais.
Uma sociedade avançada não é aquela que administra bem suas catástrofes. É aquela que aprende a chegar antes delas.
O futuro não pode ser entregue apenas aos tribunais. Quando o processo judicial começa, frequentemente o futuro já se tornou passado.
Não precisamos apenas de juristas capazes de julgar os naufrágios. Precisamos levá-los a bordo, ao lado dos engenheiros, antes que o navio deixe o porto.
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Perguntas em formato de busca
- Por que o Judiciário não consegue prevenir as catástrofes sociais?
- O que significa viver na era do Judiciário?
- Punições mais severas realmente reduzem os crimes?
- Como preparar as leis para riscos criados pelas novas tecnologias?
- Por que a educação deveria ensinar planejamento e análise de riscos?
- O que significa chamar o engenheiro de profeta do futuro?
- Como engenheiros e juristas podem trabalhar juntos na prevenção?

