quarta-feira, 19 agosto 26

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A democracia não entra pela porta dos fundos.

A democracia não entra pela porta dos fundos.

Há uma ideia que venho amadurecendo há algum tempo e que considero um dos pilares para compreender a própria democracia.

A democracia não nasce espontaneamente. Não floresce simplesmente porque uma sociedade enriqueceu, aumentou seu nível de escolaridade ou alcançou determinado estágio de desenvolvimento econômico. Também não se instala por inércia histórica, como se fosse um destino inevitável.

Ela é uma construção.

E toda construção exige intenção.

A democracia precisa ser desejada antes de ser implantada. Precisa ser compreendida antes de ser defendida. Precisa ser ensinada antes de ser exercida.

Nenhuma sociedade acorda democrática por acaso.

Por trás de toda democracia estável existiram homens e mulheres capazes de pensar além do presente, compreender a natureza das instituições e perceber que a liberdade necessita de estruturas permanentes para sobreviver.

As instituições não surgem da terra como árvores. São concebidas pela inteligência humana, moldadas pela experiência histórica e continuamente aperfeiçoadas pelas gerações seguintes.

Da mesma forma, também podem ser destruídas.

E quase nunca são destruídas de uma única vez.

Seu enfraquecimento costuma começar de forma discreta, por pequenas concessões, atalhos convenientes, decisões aparentemente inofensivas e desvios que parecem insignificantes quando observados isoladamente. Somente com o passar do tempo percebe-se que aqueles pequenos gestos alteraram profundamente os alicerces sobre os quais a sociedade havia sido construída.

Por isso acredito que toda democracia necessita de pessoas dedicadas ao estudo permanente da política, da história, do direito e do funcionamento das instituições.

Não porque sejam superiores aos demais.

Mas porque assumem a responsabilidade de observar aquilo que a rotina cotidiana frequentemente impede a maioria de perceber.

São elas que ajudam a distinguir o que representa uma evolução institucional daquilo que, lentamente, pode transformar-se em sua deterioração.

Essa não é uma tarefa operacional.

É uma tarefa intelectual.

Exige estudo, prudência, memória histórica e, sobretudo, independência de pensamento.

Governar uma democracia é muito mais do que administrar recursos públicos. É preservar um patrimônio invisível construído ao longo de gerações: a confiança nas instituições.

Por isso acredito que uma democracia saudável depende da existência permanente de pessoas dispostas a pensar o Estado, questionar seus rumos, revisar seus próprios conceitos e alertar quando os pilares institucionais começam a apresentar fissuras.

Não para substituir a vontade popular.

Mas para qualificá-la.

Talvez essa seja uma das responsabilidades menos percebidas da vida pública.

As democracias não sobrevivem apenas porque possuem leis.

Sobrevivem porque existem pessoas que compreendem por que essas leis foram criadas, quais valores elas protegem e quais consequências podem surgir quando esses fundamentos deixam de ser compreendidos.

A democracia não entra pela porta dos fundos.

Ela entra pela porta da consciência.

José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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