Era uma tarde qualquer, estrada longa pela frente, e o rádio ligado para me fazer companhia. No meio das músicas e propagandas, entrou um locutor animado:
— “Está valendo um prêmio! Concurso no ar: qual é a frase mais feia que alguém pode pronunciar? Quem acertar leva o troféu e a glória de ter descoberto o segredo!”
Confesso que me intriguei. Gosto dessas charadas que prendem a atenção. Continuei dirigindo, esperando ouvir a resposta de algum ouvinte. As tentativas chegavam:
“Eu te odeio.” — errado.
“Não vale a pena viver.” — errado.
“Eu não consigo.” — também não era.
O programa foi até o fim da tarde, mas ninguém acertou. E eu, curioso, fiquei com aquilo na cabeça.
Os dias viraram semanas, semanas viraram anos. A frase não vinha. De vez em quando lembrava da charada, sempre sem resposta. Era como uma pedrinha no sapato da memória.
Até que um dia, sem aviso, a revelação apareceu clara como sol depois da tempestade. A frase mais feia não era longa, nem rebuscada. Era curta, simples, quase inocente:
“EU PODEDIA.”
Ali estava a crueldade. Tudo que ficou para trás. O que não se fez, o que não se disse, o gesto que não se teve coragem de dar. “Eu poderia” é o epitáfio de oportunidades mortas.
A vida é um rio que corre para frente. O que poderíamos ter feito e não fizemos, passou. Não volta. Não adianta ensaiar a frase depois que a porta já se fechou.
E assim entendi: a beleza está no “eu fiz”, no “eu tentei”, no “eu vivi”. O feio é carregar o “eu poderia” no bolso da memória, lembrando-se sempre de que a chance existiu… e se perdeu.
Não deixe o “eu poderia” roubar o lugar do “eu fiz”. A vida não espera.
E você… já tinha pensado nisso?
Ensaio/Jose Orlando Witzler

