O Risco dos “Tudólogos”: Quando Autoridades Viram Historiadores
Outro dia, navegando pela internet, conheci um antropólogo social que cunhou um termo que me pareceu brilhante: “tudólogo”.
O tudólogo é aquele que opina sobre tudo, comenta sobre qualquer assunto e assume ares de especialista universal.
As redes sociais, com sua lógica de velocidade e visibilidade, potencializaram essa figura. Técnicos de futebol viram filósofos de botequim. Celebridades opinam sobre economia global. Influenciadores digitais dissertam sobre ciência e política com a mesma desenvoltura com que comentam moda ou entretenimento. O espaço público se encheu de vozes que falam com autoridade sobre temas para os quais não têm preparo técnico.
O problema é quando essa postura transborda para esferas em que a neutralidade e o rigor são indispensáveis.
O tudólogo oficial
Recentemente, em um veículo de grande circulação, encontrei uma frase atribuída a uma autoridade que dizia:
“A história nos ensina que a impunidade, a omissão e a covardia não são opções para a pacificação, pois o caminho aparentemente mais fácil deixa cicatrizes traumáticas e corrói a democracia, como lamentavelmente o passado recente no Brasil demonstra.”
A frase, forte e eloquente, poderia estar em um discurso político, em uma palestra de ciência social ou em um editorial de jornal. Mas não em uma decisão técnica de Estado.
Quando uma autoridade se torna “tudóloga”, assume funções que não lhe pertencem:
- transforma-se em historiadora, ao citar lições do passado;
- em moralista, ao classificar condutas como covardia;
- em agente político, ao falar em pacificação.
O resultado é a erosão da confiança pública: a sociedade passa a enxergar a função exercida não mais como técnica e imparcial, mas como mais uma voz no coro dos tudólogos.
Lições da história
A própria história mostra os riscos dessa confusão de papéis:
- nos tribunais políticos da Alemanha nazista, julgamentos serviam de propaganda ideológica;
- durante a Revolução Francesa, decisões eram tomadas por “convicção moral” em defesa da pátria;
- no famoso caso Dreyfus, preconceitos e nacionalismo se sobrepuseram às provas.
Em todos esses episódios, o espaço de julgamento perdeu sua natureza técnica e se converteu em instrumento de poder, com consequências graves para a sociedade.
A sociedade dos tudólogos
Nas redes sociais, todos nós nos tornamos um pouco tudólogos. Falamos de política, filosofia, economia, psicologia. Comentar virou uma forma de existir. Isso democratiza vozes, mas também banaliza a palavra.
Quando tudo é comentado e se opina sobre tudo, o valor da fala se dilui. É provável que chegue o momento em que estaremos indiferentes às vozes dos tudólogos — sejam eles celebridades, comentaristas digitais ou autoridades públicas.
Conclusão
Uma autoridade pública, no desempenho de sua função, não pode se dar ao luxo de ser um tudólogo. Sua legitimidade deriva justamente da imparcialidade, da sobriedade e do foco técnico ao fundamentar suas ações.
Se perder esse limite, a função institucional se mistura ao ruído das redes, e o espaço que deveria ser refúgio da cidadania se torna apenas mais um palco de retórica.
A lição é simples: em tempos de tudólogos, precisamos que cada um faça apenas aquilo que lhe cabe como função — e para o que é remunerado pela sociedade.

