O contrato social e a tentação do “tudólogo”
1. Abertura – o contrato como regra de convivência
Numa sociedade saudável, a vida flui quando cada um faz o que tem de fazer: contratando ou contratado, com precisão, dentro do escopo e com diligência. É assim que os ofícios se sustentam, é assim que até a prostituição, no seu campo, funciona: um contrato claro, um limite definido, uma entrega acordada.
O pedreiro não se compromete a construir a cidade inteira, apenas a levantar a parede que lhe foi encomendada. A prostituta não assume um amor eterno, mas a prestação de um serviço dentro de um tempo e de um preço combinados. O ponto em comum é a clareza: saber o que se dá, o que se recebe, e até onde vai a responsabilidade de cada parte.
Essa clareza contratual é, em si, um exercício de civilidade. Quando respeitada, a vida social se torna previsível, ordenada e relativamente justa. O contrato explícito ou implícito é o alicerce que organiza a convivência.
2. A fronteira do problema
Mas o problema começa justamente quando saímos desse território de clareza. A maioria das nossas relações não é de ofício nem de prostituição: não se apoiam em papéis formais, tampouco em limites nítidos. São vínculos soltos, difusos, onde o afeto, o interesse e o dever se misturam.
Nesse campo cinzento, as linhas se confundem. É o oficial que ultrapassa a autonomia e tenta decidir além do que lhe compete. É o prestador que não cumpre o combinado e se perde em justificativas. É a prostituta que se apaixona, cruzando a fronteira entre o contrato objetivo e a entrega subjetiva.
Todos, em maior ou menor medida, atravessamos para o outro lado do balcão. Somos contratados, mas nos comportamos como contratantes. Somos prestadores, mas nos colocamos como clientes. Essa confusão de papéis alimenta frustrações, mal-entendidos e conflitos que poderiam ser evitados se a regra básica fosse seguida: cada qual no seu papel, dentro dos limites acordados.
3. O palco das redes sociais
Se na vida cotidiana já é difícil manter a clareza, nas mídias sociais esse fenômeno ganhou proporções ainda maiores. O anonimato, a velocidade e o alcance deram voz a todos e com isso, surgiram os personagens que um antropólogo social chamou de tudólogos: aqueles que falam sobre tudo, opinam sobre qualquer coisa, e assumem ares de especialistas universais.
De repente, funcionários públicos que deveriam se ater às suas funções aparecem como técnicos de futebol, comentando escalações e estratégias. Outros se apresentam como filósofos de botequim, profetas improvisados, futuristas instantâneos ou historiadores de ocasião. Um espaço que poderia servir à troca produtiva de informações se converteu, muitas vezes, num palco de exibicionismos e palpites fora de contrato.
Esse é o ponto crítico: quando se abandona o papel para o qual se foi investido seja por ofício, cargo ou função , a fala perde responsabilidade. O que deveria ser exercício de dever torna-se espetáculo de opinião. O servidor público que deveria se concentrar em sua tarefa básica gasta energia em previsões sobre o futuro do país. O profissional que deveria se restringir à sua técnica busca prestígio em áreas onde não tem preparo. O cidadão comum, sem perceber, assume ares de autoridade em temas que mal domina.
4. Moral da história
Talvez a maior virtude da vida social não seja opinar sobre tudo, nem tentar assumir papéis que não nos cabem. A moral da história é simples e, ao mesmo tempo, desafiadora: restrinja-se a fazer bem o que lhe foi confiado ou contratado para fazer.
Isso já é muito. Isso já seria revolucionário.
Se cada um se concentrasse em cumprir, com diligência e precisão, as responsabilidades de seu papel, a sociedade inteira ganharia clareza, eficiência e justiça.
O excesso de vozes que atravessam o balcão, opinando sobre o que não lhes compete, não fortalece a democracia nem a liberdade de expressão — apenas gera ruído, desorientação e perda de confiança.
Em tempos de redes sociais, onde o “tudólogo” parece reinar, talvez o gesto mais sábio e transformador seja este: ficar no seu ofício, honrar o contrato, cumprir o escopo. Não como limitação, mas como forma de devolver à sociedade o que lhe é devido: ordem, clareza e responsabilidade.

