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Profecia Tucana.

A Profecia Tucana

Há certas frases na política que envelhecem como vinho. Outras envelhecem como fotografia esquecida numa gaveta: só muito tempo depois alguém volta a olhar e percebe detalhes que passaram despercebidos.

Lembro de uma dessas imagens. O cenário era um estúdio de televisão. O programa, Roda Viva. Fernando Henrique Cardoso ainda circulava entre o intelectual e o homem de governo. Falava pausadamente, como professor que pensava enquanto organizava as palavras. Em algum momento surgiu uma ideia que, naquele Brasil recém-saído das grandes turbulências, soava quase estranha: a possibilidade de aproximação entre PSDB e PT.

Na época, muitos ouviram aquilo como se fosse um comentário lateral. Uma hipótese acadêmica. Um exercício de imaginação política.

Mas a política possui um estranho hábito: ela arquiva sementes.

Veio o Plano Real. Vieram eleições. O país escolheu lados. E durante duas décadas o Brasil virou um grande estádio dividido. De um lado, tucanos. Do outro, petistas. Intelectuais, sindicalistas, economistas, militantes, jornais, universidades, empresas, ruas e famílias.

Parecia definitivo.

Mas poucas coisas são definitivas em política.

Anos depois, o país mudou. Os partidos se multiplicaram. As fronteiras ideológicas começaram a perder nitidez. O antigo PSDB foi se fragmentando, espalhando suas peças como um vaso que cai lentamente no chão.

E então aconteceu algo que, nos anos 1990, talvez fizesse um comentarista derrubar o café da manhã: Geraldo Alckmin, o velho adversário petista, tornou-se vice de Lula.

Naquele momento alguns enxergaram pragmatismo. Outros viram sobrevivência. Outros falaram em reconciliação nacional.

Mas talvez fosse apenas a política terminando uma frase iniciada décadas antes.

E enquanto isso, em outro canto do tabuleiro, uma figura antiga observava.

Aldo Rebelo.

Há personagens que parecem caminhar ao lado do tempo, não dentro dele. Nunca ocuparam o centro absoluto do palco, mas também jamais saíram totalmente de cena.

Enquanto muitos trocaram de linguagem a cada vento novo, Aldo parecia carregar algo mais antigo: a ideia de nação.

Não uma esquerda importada em embalagens prontas. Não a esquerda dos slogans instantâneos ou dos algoritmos. Mas uma esquerda de indústria, território, soberania, desenvolvimento, identidade nacional.

E talvez justamente por isso algo curioso possa acontecer.

Porque existe uma velha militância — o petista raiz, aquele de carteirinha, de sindicato, de reunião longa e café em copo plástico — que envelheceu junto com seus líderes.

Essa geração pode começar a olhar para trás procurando menos bandeiras e mais continuidade.

Menos guerra.

Mais projeto.

Talvez procure alguém que fale de Brasil antes de falar de grupos.

Talvez procure uma ideia de país.

Talvez procure um herdeiro sem sobrenome político.

E então imagino um velho observador sentado numa praça qualquer, lendo jornal e sorrindo sozinho.

Ele dobra a página, ajeita os óculos e pensa:

‘No fim das contas, Fernando Henrique talvez estivesse enxergando uma estrada, enquanto todos nós olhávamos apenas a curva.’

Mas existe ainda outra peça espalhada sobre a mesa.

A direita.

Porque enquanto muitos observavam a transformação silenciosa do velho eixo PT–PSDB, outro fenômeno acontecia ao lado.

A direita brasileira, que durante anos encontrou em Jair Bolsonaro um centro gravitacional poderoso, começou a enfrentar um velho problema da política: sucessão.

Movimentos políticos personalistas costumam crescer muito rápido. Mas quando a liderança central enfraquece, se afasta ou perde capacidade de coordenar os diversos grupos ao redor, surgem pequenas ilhas.

E as ilhas começaram a aparecer.

Liberais, conservadores, religiosos, nacionalistas, setores econômicos, lideranças regionais, influenciadores digitais e herdeiros políticos passaram a disputar espaço dentro de um campo que antes parecia falar em voz única.

O resultado pode ser uma fragmentação curiosa: muitos líderes, muitos porta-vozes, muitas bandeiras mas pouca capacidade de unificação.

Não necessariamente por ausência de nomes, mas pela dificuldade de surgir alguém com força suficiente para transformar grupos diversos em projeto nacional.

E talvez a ironia da história esteja justamente aí.

Enquanto a esquerda procura um herdeiro e a direita procura um centro, o país inteiro parece entrar numa fase onde as antigas estruturas deixam de organizar a paisagem.

Talvez seja justamente nesses vazios que personagens antigos voltem a ganhar espaço.

E a profecia termina de modo improvável.

Alckmin presidente.

Aldo reorganizando uma esquerda racional, menos identitária e mais nacional-desenvolvimentista.

Não como repetição do passado.

Mas como tentativa de reconstruir um projeto de nação.

Pode acontecer? Pode não acontecer.

Mas política, aprendi faz tempo, é o lugar onde as impossibilidades passam anos descansando até alguém resolver chamá-las de destino.

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José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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