Eu preciso falar sobre cultura, história e formação de uma nação. Ou, ao menos, tentar falar — porque talvez tudo isso seja maior do que qualquer tentativa de explicação.
Certa vez, conhecemos um fornecedor chinês que vendia materiais para o nosso comércio, situado no bairro da Liberdade, em São Paulo. Com o tempo, acabamos criando certa proximidade, especialmente com a filha dele, que havia iniciado o negócio junto com o pai.
Em uma dessas conversas, surgiu uma curiosidade quase ingênua da minha parte: perguntei se eles ainda preservavam a língua e a cultura de origem. Ela respondeu que o pai ainda falava o chinês de 50 anos atrás e mantinha muitos dos hábitos daquele tempo — e que a família, de certa forma, também preservava muito dessa herança.
Mas havia um detalhe curioso, quase melancólico: ao retornar à China depois de meio século, ele já não conseguia mais se comunicar plenamente com seus conterrâneos. A língua havia mudado, os costumes também. O mundo seguiu, e ele permaneceu.
Assim, voltou ao seu “exílio”, por assim dizer — um espaço onde o tempo parecia ter parado. Um mundo de 50 anos atrás, preservado não por escolha consciente talvez, mas por circunstância.
E foi aí que algo começou a fazer sentido para mim — ou pelo menos pareceu fazer.
Talvez os verdadeiros guardiões da cultura sejam justamente os deslocados: refugiados, exilados, imigrantes. Aqueles que, por estarem fora, tentam manter dentro de si algo que já não existe da mesma forma no lugar de origem.
Claro, muitos acabam se integrando completamente à cultura local. Mas outros resistem — preservam a língua, os costumes, os gestos. E, curiosamente, acabam guardando uma versão congelada da cultura, enquanto o mundo original continua se transformando.
A cultura viva, afinal, não é estática. Ela muda, se adapta, se dilui. Talvez nunca possamos defini-la sem fixá-la artificialmente em um determinado momento do tempo.
Mas onde quero chegar com tudo isso?
Talvez na ideia de que o “estrangeiro” sempre ocupou um lugar especial. Na Bíblia, por exemplo, há uma constante orientação de respeito ao estrangeiro — quem sabe justamente por ele carregar algo que já não é mais plenamente visível.
No cristianismo, há também essa noção de que somos estrangeiros neste mundo. De que pertencemos a outro reino, e estamos apenas de passagem. Mas isso, confesso, também me parece uma ideia difícil de compreender completamente.
Pensando nisso, lembro da história do povo hebreu — sempre em movimento, sempre em busca, nunca plenamente fixado. Talvez essa condição tenha permitido a preservação de uma identidade forte, mas ao mesmo tempo deslocada.
Algo semelhante pode ser observado nos ciganos, que historicamente evitam fixar raízes. Vivem em fluxo constante, adaptando-se na superfície, mas mantendo algo essencial preservado.
E então, inevitavelmente, penso no Brasil.
E aqui, talvez eu esteja completamente equivocado — mas ainda assim arrisco.
O Brasil parece, de alguma forma, um grande dissolvedor de culturas. Um espaço onde tudo se mistura, se adapta, se transforma em algo comum. Há uma força quase invisível que empurra todos para uma espécie de conformação.
Culturas chegam, mas raramente permanecem intactas. Elas se transformam, se diluem. Talvez isso seja bom. Talvez seja preocupante. Ou talvez seja apenas o que é.
Existe, sem dúvida, uma impressionante uniformidade. Um território imenso que, apesar das diferenças regionais, compartilha muito mais do que aparenta. Isso pode ser visto como um milagre — ou como um fenômeno difícil de explicar.
No campo do consumo, por exemplo, há uma homogeneidade quase absoluta. Todos parecem desejar as mesmas coisas, aspirar aos mesmos modelos. Como se houvesse um consenso silencioso.
Mas isso levanta uma pergunta incômoda: o que é, afinal, ser brasileiro?
Talvez seja não ser uma coisa definida. Talvez seja justamente essa ausência de forma rígida. Uma espécie de identidade em aberto.
A falta de uma ancestralidade claramente delimitada — ou de uma relação forte com o passado — pode nos tornar mais livres. Ou mais perdidos. Não sei.
Talvez vivamos mais no presente imediato. Talvez nosso futuro seja sempre o hoje.
E talvez — apenas talvez — isso seja um recurso, e não uma falha.
Há quem diga, sob uma perspectiva mais espiritual, que o Brasil seria uma “pátria do evangelho”. Mas não no sentido institucional da religião, e sim como um espaço de possibilidades humanas quase ilimitadas.
Aqui, tudo parece possível.
E, ao mesmo tempo, nada é totalmente permitido.
Lembro de uma fala de um CEO de uma multinacional que ouvi certa vez: depois de décadas estudando o tema, ele chegou a uma definição simples de cultura — cultura é tudo aquilo que você pode e não pode fazer.
Se for assim, o Brasil é um enigma.
Porque aqui, aparentemente, tudo pode — e nada pode ao mesmo tempo.
Então, talvez, não tenhamos uma cultura definida.
Ou talvez sejamos uma cultura em fluxo constante — como os hebreus, como os ciganos. Sempre em movimento, sempre em adaptação.
Um povo que vive, de alguma forma, sem pertencimento pleno. Mais usuários do que proprietários. Mais passageiros do que construtores conscientes.
E talvez — mais uma vez, talvez — isso explique muita coisa.
Talvez sejamos, no fundo, estrangeiros em nossa própria terra. Imigrantes de nós mesmos.
E, ainda assim… vivemos.
Sem muito planejamento. Sem grandes certezas.
Mas, de alguma forma difícil de explicar, seguimos sendo felizes.
Talvez seja isso, afinal, ser brasileiro.
Jose Orlando Witzler 28/04/2026

