quarta-feira, 19 agosto 26

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A resposta esta no carcere.

A Resposta que Ficou Presa

Não sei se o leitor já foi convidado a escolher entre duas portas que conduziam ao mesmo aposento. Se nunca foi, dou-lhe os parabéns; escapou de um dos passatempos preferidos dos homens que gostam de fabricar dilemas.

Conheci, certa vez, um velho capitão.

Chamavam-no assim não porque comandasse navios, mas porque tinha o estranho hábito de permanecer de pé quando todos já haviam abandonado o convés.

Encontrava-se recolhido em sua fortaleza. Não pisaria nas ruas, não receberia visitas e nem conversaria com o povo da cidade.

Era uma daquelas circunstâncias em que o silêncio deixa de ser escolha e passa a ser regulamento.

Sucedeu, porém, que, do lado de fora dos muros, apareceu uma engenhosa invenção dos novos tempos.

Os homens descobriram uma máquina capaz de emprestar voz aos ausentes e presença aos distantes.

Não pense o leitor que a novidade me espanta. Os antigos faziam o mesmo por meio da imaginação; os modernos apenas construíram melhores espelhos.

Pois bem.

A máquina falou.

Dias depois, chegou ao castelo um emissário trazendo uma folha de papel.

Nela havia apenas uma pergunta.

Ou melhor, duas.

Mas, como frequentemente acontece, duas perguntas podem ser apenas uma armadilha dividida em partes iguais.

O capitão leu.

Sorriu daquele modo discreto que apenas os velhos conhecem.

Dobrou o papel.

Guardou-o no bolso.

O emissário, impaciente, perguntou:

— Não responderá?

O capitão observou-o por alguns instantes.

Depois respondeu com uma calma que me pareceu maior que a própria fortaleza.

— Meu amigo, pedem que eu responda como homem livre justamente no dia em que me recordam que não o sou.

O emissário insistiu.

— Mas uma resposta encerraria a dúvida.

O velho meneou a cabeça.

— Não.

Encerraria apenas a utilidade da pergunta.

Há perguntas que desejam compreender.

Outras desejam confirmar.

Convém não confundi-las.

O emissário tornou a insistir.

Os emissários sempre acreditam que o mundo depende da resposta que carregam de volta.

Então o capitão aproximou-se da estreita janela.

Lá fora, um pássaro atravessava o céu sem pedir licença aos decretos dos homens.

Sorriu novamente.

— Diga aos seus senhores que, se eu fosse livre, responderia.

Responderia longa e francamente.

Mas hoje não posso.

Minha liberdade permanece atrás destas pedras.

E a resposta resolveu fazer-lhe companhia.

Confesso ao leitor que essa última frase me agradou.

Não porque resolva o enigma.

Ao contrário.

Porque o preserva.

Há quem imagine que toda pergunta merece resposta.

É um engano.

Há perguntas cuja maior resposta consiste em revelar quem as fez.

Quanto ao emissário, partiu.

Quanto ao capitão, permaneceu.

Quanto aos homens da cidade, dividiram-se em opiniões, como sempre acontece quando ninguém consegue monopolizar a interpretação dos fatos.

Uns disseram que o velho fugira.

Outros disseram que resistira.

Eu, que já vi muitas verdades envelhecerem e muitas certezas mudarem de roupa, prefiro acreditar que algumas respostas amadurecem melhor quando permanecem em silêncio.

E, se o leitor ainda desejar um desfecho, darei o único que me parece honesto.

Anos depois, perguntaram ao cozinheiro do castelo qual havia sido o sabor daquela história.

Ele respondeu sem levantar os olhos do fogão:

— Ora, o prato era curioso. Tinha as cores da esperança, era coberto por um molho pálido de aparente pureza e servido sobre uma porcelana azul tão bonita que alguns convidados passaram a admirar o prato e esqueceram-se de provar a comida.

Se era vingança, justiça ou apenas culinária…

Deixo isso ao gosto do leitor.

Machado certamente faria o mesmo.

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José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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