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Um ensaio sobre o Princípio da Não Violência.

A Paz Armadilha: quando o Estado ensina a violência

Um ensaio sobre o Princípio da Não Violência e o equívoco estrutural das polícias militarizadas

“A violência não nasce do disparo, mas da intenção que o antecede.”
Reflexão sobre o Princípio da Não Violência (PNV)

 Introdução – A violência invisível das boas intenções

Vivemos em um tempo em que a palavra “segurança” se tornou sinônimo de “força”.
Quase não percebemos o quanto isso é estranho.
Aprendemos, desde cedo, que a paz precisa de armas, que a ordem precisa de medo, e que o Estado precisa se defender… do próprio cidadão.

Mas será que isso faz sentido?

Por trás da aparente lógica da defesa, existe um equívoco antigo e sutil:
o de acreditar que a violência é o único idioma capaz de impor respeito.
E assim, confundimos autoridade com poder, proteção com controle, lei com punição.

A ideia de uma “polícia militar” é talvez o símbolo mais claro dessa contradição.
Ela junta dois mundos opostos: o da guerra, que se destina ao inimigo externo, e o da convivência civil, que deveria cuidar da vida interna.
Quando a proteção nasce do medo e não da confiança, o resultado é previsível: o medo se espalha.
E o ciclo da violência se realimenta  nas ruas, nos lares e até na mente coletiva.

A contradição das palavras: “polícia militar”

A expressão “polícia militar” parece inofensiva à primeira vista, mas contém uma inversão simbólica perigosa.
“Polícia” vem do grego polis, cidade  o espaço da vida comum, da ordem e do diálogo.
“Militar”, por sua vez, vem de militare, servir em guerra  o espaço da defesa, do combate, da destruição necessária.

Reunir os dois conceitos cria uma figura paradoxal:
um agente da paz treinado para a guerra,
um protetor que precisa enxergar o protegido como possível inimigo.

É como pedir a um jardineiro que marche, e a um soldado que abrace.

Esse equívoco linguístico tornou-se estrutural.
Transformou-se em cultura, doutrina e política pública.
E dele nasceu a militarização da vida civil,
onde a presença da autoridade não mais tranquiliza  intimida.

 O círculo do medo: quando o Estado teme o povo

O resultado é o círculo vicioso da violência urbana,
um mecanismo de retroalimentação que aprisiona o Estado e o cidadão numa relação de desconfiança mútua.

  1. O Estado teme o povo — e se arma.
  2. O povo teme o Estado — e também se arma.
  3. O medo mútuo justifica novas armas, novas leis, novos muros.
  4. E a violência passa a ser vista como natural, inevitável, cotidiana.

A violência deixa de ser ato e se torna ambiente.
Deixa de ser exceção e vira cultura.
O Estado, ao tentar proteger-se, ensina o medo;
e a sociedade, ao reagir, repete o gesto.
Assim, a violência que deveria ser combatida é, paradoxalmente, ensinada por quem deveria dar o exemplo da paz.

O Princípio da Não Violência (PNV) – a força da presença

O Princípio da Não Violência, ou PNV, propõe outra lógica de poder.
Inspirado em tradições espirituais antigas e reforçado por pensadores modernos como Gandhi, Martin Luther King e Tolstói,
esse princípio parte da ideia de que toda autoridade verdadeira nasce da legitimidade moral, não do medo.

A não violência não é passividade.
É força sem agressão.
É a capacidade de agir com firmeza e empatia ao mesmo tempo.
É o domínio de si que desarma o outro antes mesmo do conflito.

No contexto do Estado, o PNV revela algo crucial:

A violência não começa no ato físico, mas na estrutura simbólica que autoriza o ato.
E o termo “polícia militar”, em si, já contém o germe da violência antes que qualquer tiro seja disparado.

A sutileza das intenções

A vida é feita de sutilezas.
Um olhar pode construir uma ponte ou acender um incêndio.
Uma palavra pode proteger ou destruir.
A violência, antes de ser física, é sutil: nasce de um gesto, de um tom de voz, de uma intenção não dita.

E quando o Estado se comunica com o cidadão através do medo,
ensina a sociedade a falar o mesmo idioma.
O medo torna-se a gramática das relações.
E toda convivência passa a ser mediada pela desconfiança.

O PNV propõe o contrário:
que a convivência seja baseada na confiança, no respeito e na escuta.
Porque a paz não se impõe  ela se cultiva.

O caminho da reconstrução: a Polícia Cidadã

Reverter esse quadro não é simples, mas é possível.
Toda transformação estrutural começa por uma mudança simbólica e a primeira delas é repensar o próprio nome das instituições que representam o Estado.

“Polícia Militar” é um termo que carrega em si a sombra da guerra.
E enquanto essa sombra não for substituída pela luz da convivência,
o medo continuará sendo o mediador da ordem.

Uma Polícia Cidadã não seria uma utopia,
mas um passo natural na evolução civilizatória.
Uma força de presença, não de repressão.
De escuta, não de suspeita.
De prevenção, não de punição.

Em alguns países, isso já é realidade.
Policiais desarmados caminham nas ruas, são conhecidos pelo nome,
e representam o Estado como uma figura de apoio, não de ameaça.
Eles não combatem o cidadão: convivem com ele.
E é essa convivência que produz segurança verdadeira.

Reformar a linguagem, reconstruir o vínculo

Antes de reformar as leis, talvez seja preciso reformar o vocabulário.
A linguagem é a arquitetura invisível do pensamento.
Quando o nome carrega violência, a mente se arma antes mesmo que o corpo aja.

“Militar” e “cidadão” são universos distintos.
Um vive da hierarquia, o outro da convivência.
Um responde a ordens, o outro constrói acordos.
Um teme o erro, o outro aprende com ele.

Reaproximar esses dois mundos é tarefa espiritual, não apenas institucional.
É relembrar que o Estado existe para servir, e não para subjugar.
Que a autoridade moral nasce do exemplo, não da imposição.
E que o poder legítimo é aquele que protege sem ferir.

 Conclusão – O gesto sutil que pode mudar tudo

Talvez o primeiro passo para um país mais pacífico
não esteja em novas armas ou leis mais duras,
mas em algo muito mais simples e esquecido:
reaprender a confiar.
Reaprender a conversar antes de confrontar.
Reaprender que autoridade não é o direito de mandar,
mas o dever de servir.

A paz não virá da força.
Ela nascerá do gesto sutil que desarma a alma:
um olhar que não julga,
uma palavra que não fere,
uma presença que não ameaça.

Enquanto a violência continuar travestida de ordem,
a sociedade continuará em guerra consigo mesma.
Mas quando o Estado escolher o caminho da escuta,
a segurança deixará de ser armada
e voltará a ser humana.

“A paz não é ausência de guerra,
é a presença da justiça sem medo.”
 (Síntese do PNV aplicada ao Estado moderno)

Estudo /pauta/ Ensaio. Jose Orlando Witzler

10/10/2025

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José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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