A VÍTIMA SILENCIOSA, NÃO FOI AO JULGAMENTO.
Enquanto os tribunais celebram sua liturgia, os corredores da vida seguem marcados por feridas abertas.
Neles, não ecoam as palmas para a eloquência dos advogados.
Ali, onde o tempo não cura, nem os autos alcançam, permanece o dano que não foi reparado.
Vivemos uma era em que a defesa se tornou espetáculo.
Onde a estética da argumentação, a sofisticação da linguagem e o carisma do orador encantam mais que a dor das vítimas.
O advogado tornou-se figura pública — quase uma estrela. Seu nome se perpetua em jurisprudências, seus gestos em vídeos, suas metáforas em aulas magnéticas.
Muitas vezes, ele se torna maior que o crime que defende.
Mas… e a vítima?
A criança que morreu por falta de leito?
O idoso que teve seu remédio trocado por uma caixa de promessas vencidas?
A fila que nunca andou porque alguém a transformou em contrato milionário?
Esses não têm advogado.
Não têm sustentação oral.
Não têm metáfora.
Nem jantares com juízes.
Esses têm apenas o silêncio do prejuízo.
A justiça humana, tantas vezes, se contenta com a punição ritual, e se esquece da reparação real.
Não há sentença que devolva a vida perdida, nem jurisprudência que compense o tempo roubado.
E os grandes defensores que amamos — brilhantes, sofisticados, quase poetas —
Quantas vezes erguem sua arte para dissolver o fato, obscurecer a consequência, relativizar o mal praticado?
O que se celebra é a inteligência da tese.
E o que se esquece é o buraco onde caiu o direito da vítima.
Mas existe uma ideia que incomoda os vaidosos.
Uma ideia que escapa às sustentações, que não cabe nos autos, nem se dobra à retórica:
o Julgamento que virá.
Dizem que haverá um tribunal — não humano —
Onde o que vale não será a persuasão, mas a verdade das intenções e a realidade dos danos.
Onde não se medirá a elegância da defesa, mas a sombra do que foi causado, e a possibilidade — ou impossibilidade — de conserto.
E nesse tribunal, talvez, não haja absolvição para quem apenas encantou.
A pergunta será simples, crua, definitiva:
“Aquilo que você fez… pode ser reparado?”
Se esse tribunal não existir —
Se não houver, ao fim de tudo, um juízo que veja o invisível e pese o intangível —
Se não houver alguém que fale em nome do que foi silenciado…
Finalizo por não encontrar meios de expressar e trazer a este singelo texto tamanho vazio.

