Como alguém pode marcar a nossa vida sem nunca ter nos dado uma aula
Há histórias que não escolhemos contar. Elas simplesmente amadurecem dentro de nós até que chega o momento em que precisam ser escritas.
Esta é uma delas.
Durante toda a minha infância ouvi minha mãe falar de um professor chamado Cid Guelli.
Ela havia sido sua aluna na antiga Escola Normal de Botucatu.
Não falava dele apenas como um excelente professor de Matemática. Falava com admiração. Com respeito. Com um brilho diferente nos olhos.
Ela contava que ele era apaixonado pelo que fazia.
Que entrava na sala de aula vestindo seu tradicional guarda-pó, sempre branco, já marcado pelo giz de tantas aulas. Enquanto explicava um raciocínio, era comum segurar o giz em uma mão e um cigarro na outra — um hábito muito presente naquela geração e que, infelizmente, anos depois contribuiria para interromper sua vida ainda aos 60 anos.
Mas o que realmente permanecia na memória dos alunos não era o cigarro.
Era o entusiasmo.
Era a maneira como transformava a Matemática em uma aventura intelectual.
Minha mãe nunca se cansou de repetir uma história.
Cid Guelli acreditava que ela tinha talento para a Matemática.
Chegou a convidá-la para seguir seus estudos em São Paulo.
Por circunstâncias da vida, ela não pôde aceitar aquele convite.
Sempre que lembrava desse episódio havia um misto de orgulho e de saudade. Não de uma oportunidade perdida apenas, mas da lembrança de um professor que acreditou nela.
Anos depois, a vida me levou exatamente para São Paulo.
Fui fazer cursinho no Anglo.
Cid Guelli já não estava mais entre nós.
Eu nunca o conheci pessoalmente.
Mesmo assim, de certa forma, encontrei sua presença.
Seu nome ainda era lembrado nos corredores.
Sua história fazia parte da identidade do Anglo.
Percebia-se que existira ali um professor diferente.
Alguém cuja influência permanecia viva muito depois de sua partida.
Curiosamente, acabei me tornando um admirador de um homem que jamais conheci.
E isso me fez pensar.
Quantas pessoas conseguem continuar inspirando gerações depois de terem partido?
Muito poucas.
Recentemente resolvi pesquisar sua história.
Graças aos arquivos digitais, às bibliotecas, às teses acadêmicas, aos relatos de antigos alunos e até às modernas ferramentas de pesquisa por inteligência artificial, consegui reunir fragmentos de uma vida extraordinária.
Encontrei documentos.
Encontrei depoimentos.
Encontrei histórias.
Encontrei uma fotografia.
Talvez seja a única fotografia em que ele aparece dando aula.
Quando a vi, compreendi algo curioso.
Eu não estava apenas pesquisando um professor.
Estava resgatando uma parte da memória da minha própria família.
A lembrança que minha mãe preservou por toda a vida agora ganhava forma diante dos meus olhos.
Hoje entendo que um grande professor raramente deixa como legado apenas livros ou fórmulas.
Ele deixa pessoas.
Deixa escolhas.
Deixa profissões.
Deixa sonhos.
Talvez o maior patrimônio que um educador possa construir seja despertar em alguém a paixão pelo conhecimento.
O restante é consequência.
Por isso decidi escrever sobre Cid Guelli.
Não apenas para registrar sua biografia.
Mas para lembrar que homens assim existiram.
E continuam existindo.
Professores cuja maior obra não está escrita nas lousas, nem nas apostilas, nem nos livros.
Sua verdadeira obra vive dentro de milhares de alunos que aprenderam muito mais do que Matemática.
Aprenderam que conhecer é um ato de paixão.
E que um professor pode mudar silenciosamente o destino de uma vida.
Se hoje consigo contar esta história, devo isso não apenas às fontes históricas que encontrei, mas também à memória de minha mãe, que nunca deixou esse professor ser esquecido em nossa família.
Este texto é, antes de tudo, uma homenagem a ela.
E também um agradecimento ao professor Cid Guelli.
Mesmo sem nunca tê-lo conhecido, sinto que aprendi um pouco com ele. Talvez essa seja a maior prova de que um verdadeiro mestre continua ensinando muito depois de partir.



