A Próxima Onda, O Fim da História e o Nascimento da Era Caórdica
A leitura em paralelo de A próxima onda de Mustafa Suleyman, O fim da história e o último homem de Francis Fukuyama e Nascimento da Era Caórdica de Dee Hock nos oferece três modos distintos de compreender a sociedade contemporânea: o avanço tecnológico e suas consequências, a evolução política e filosófica da humanidade e a emergência de uma lógica caórdica para explicar o fluxo social. Ao aproximá-los, emerge uma crítica ao fatalismo tecnológico e à crença em previsões auto-destrutivas do ser humano, ao mesmo tempo em que se aponta para a necessidade de novos paradigmas de entendimento.
Suleyman: a onda tecnológica incontível
Mustafa Suleyman descreve a inteligência artificial e a biotecnologia como forças históricas inevitáveis, comparáveis a tsunamis que não podem ser contidos. A tecnologia prolifera, se torna mais barata, mais acessível e, ao mesmo tempo, mais perigosa. Seu dilema é claro: essas inovações podem abrir caminhos de abundância e bem-estar, mas também inaugurar instabilidade e catástrofe. Ao colocar a questão nesses termos, Suleyman sugere que estamos aprisionados em um ciclo de aceleração no qual a sociedade corre para se adaptar às novidades, não por necessidade vital, mas para manter o ritmo imposto por investidores e corporações.
Fukuyama: o fim da história como reconhecimento
Francis Fukuyama, escrevendo no início da década de 1990, desloca a discussão para o campo político e filosófico. Para ele, a democracia liberal teria se consolidado como o estágio final do processo histórico, ao satisfazer a luta humana por reconhecimento – o thymos hegeliano. A história, nesse sentido, não é apenas sequência de eventos, mas trajetória em direção a uma forma política que atende aos desejos mais profundos da humanidade. Ainda assim, Fukuyama alerta para a figura do “último homem”: o indivíduo que, tendo suas necessidades materiais resolvidas, abdica do espírito de luta e se acomoda em uma existência marcada pelo consumo e pela autopreservação.
Dee Hock: a era caórdica e a noosfera
Dee Hock, fundador da Visa e pensador do conceito de caordem, introduz um ponto de virada essencial para compreender sociedades de grande escala em tempos de interconexão global. Para ele, sistemas vivos e organizações humanas funcionam de forma caórdica – uma fusão dinâmica de caos e ordem. Aplicado à sociedade contemporânea, esse conceito aproxima-se da ideia de noosfera: uma esfera do pensamento coletivo da humanidade, interconectada por redes digitais e fluxos informacionais.
Nessa perspectiva, não é mais possível prever de forma linear qualquer movimento futuro. A sociedade opera em redes complexas, em que pequenas variações podem desencadear grandes transformações. O desafio já não é tentar controlar ou antecipar, mas aprender a navegar nesse fluxo caórdico, aceitando a imprevisibilidade como parte estrutural da vida coletiva. Aqui, a crítica ao determinismo técnico se completa: não se trata de conter ondas nem de encerrar a história, mas de desenvolver capacidades adaptativas e colaborativas em um espaço planetário compartilhado.
Do cartesiano ao caórdico
Se antes predominava a lógica cartesiana e newtoniana de causa e efeito, hoje emerge uma era natural e caórdica. Como a própria natureza, a sociedade interconectada não prevê nem calcula antecipadamente: apenas responde, buscando o caminho de menor gasto energético no momento em que o fato ocorre. Nesse sentido, o futuro não é destino fixo nem linha reta: é um campo de possibilidades em constante reorganização.
Fukuyama contra o determinismo tecnológico
Ao final, a visão de Fukuyama permite inverter o dilema proposto por Suleyman. O maior risco não está nas máquinas em si, mas na passividade humana diante delas. Se nos reduzirmos a meros consumidores de inovações, viveremos como “últimos homens”, resignados ao conforto tecnológico e incapazes de disputar narrativas e reconhecimento.
A contribuição de Dee Hock, ao lado de Suleyman e Fukuyama, aponta para um novo paradigma: compreender que a sociedade global funciona em fluxo caórdico, no qual o reconhecimento, a inovação e a interconexão coexistem. O verdadeiro desafio não é conter a onda, mas recuperar a capacidade de agir politicamente e eticamente em meio a ela, aceitando que a previsibilidade se dissolve diante da complexidade e que é preciso aprender a viver no caos organizado.
Conclusão
A próxima onda projeta um futuro dominado pela aceleração tecnológica, O fim da história projeta um presente em que o humano busca reconhecimento e dignidade, e Nascimento da Era Caórdica introduz uma lente que enxerga a sociedade como fluxo de caos e ordem interconectados. Ao articular as três visões, emerge a crítica ao determinismo técnico e ao pessimismo auto-destrutivo: o destino não é ditado pela máquina nem pela linearidade histórica, mas pelo modo como o ser humano decide narrar, adaptar e viver sua própria experiência coletiva. Talvez estejamos, enfim, diante não do fim da história, mas do início de uma era caórdica em que a humanidade, como a natureza, aprende a agir dentro da imprevisibilidade da noosfera.

