quarta-feira, 19 agosto 26

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PINGA CANGUARA.

Canguara

Este foi o nome escolhido para a nossa nova empreitada.

Acredito que tudo tenha começado por volta de 1975. Naqueles anos, uma grande empresa de celulose, a Duratex, instalava-se em Botucatu, na região da Fazenda Paula Souza, próxima ao Rio Pardo.

Na ocasião, a Eletro Witzler já atuava fortemente na implantação de infraestrutura elétrica para canteiros de obras da região. De alguma forma, participou também do início daquela grande construção.

Foi nesse ambiente que meu pai, o senhor Luís, conheceu e se aproximou de um personagem marcante daquela época: o senhor Eduardo Zucari, conhecido como Eduardão. Era um homem sério, gerente de fazenda, acostumado a conduzir os trabalhos com autoridade e severidade.

Na propriedade administrada por ele havia um antigo alambique, já desativado. Foi ali que começou mais uma aventura empresarial de meu pai.

Estive com ele na sede da fazenda quando procurou Eduardão para manifestar seu interesse pelo maquinário. Conversa vai, conversa vem, fizeram uma proposta e os equipamentos foram adquiridos.

Não se tratava de uma instalação pequena. Havia uma grande moenda e um belo conjunto de peças de cobre, entre elas os enormes alambiques, chamados de “cebolas”. Para os olhos de um empreendedor, aquilo não parecia um amontoado de equipamentos antigos. Era uma fábrica adormecida, esperando alguém que a fizesse funcionar novamente.

E assim começava a aventura da Canguara.

Com os recursos provenientes das obras da Duratex e um razoável fluxo de trabalho e dinheiro, teve início a retirada dos equipamentos. Ao mesmo tempo, preparava-se o local onde o alambique seria reconstruído: o Sítio da Roseira, como chamávamos a propriedade naquela época.

Foi necessário levantar uma construção de alvenaria, executar bases e organizar todo o projeto. Instalaram-se as moendas, as caixas de decantação da garapa, o pátio para recebimento da cana, as dornas de fermentação, a chaminé, as bases dos alambiques e a fornalha. Também foram adquiridos dois grandes tonéis para armazenar a aguardente.

Não sei exatamente quanto tempo demorou a instalação. Acredito que tenha levado aproximadamente um ano. O empreendimento tomou a atenção da equipe e se dividiu em muitas etapas. Era necessário comprar um trator para o cultivo, preparar o terreno, plantar a cana, organizar sua descarga e compreender todas as fases da produção.

Naquela ocasião, José Carlos, cunhado de meu pai, assumiu parte dos trabalhos e participou intensamente da construção.

Um detalhe interessante foi a montagem da fornalha. Foi preciso adquirir tijolos refratários em Piracicaba, e diziam que o assentamento deveria ser feito com uma massa preparada com barro e melado de cana, para garantir sua resistência e fixação.

Mas um alambique não vive apenas de paredes, cobre e tijolos. Era preciso ter cana.

Até onde me lembro, uma grande área do sítio foi plantada para atender à futura produção. Tudo parecia armado e preparado. Faltava, entretanto, compreender melhor o negócio e dominar o processo.

Fomos então a Rio das Pedras, na região de Piracicaba, para adquirir o que chamavam de “boneca”: uma preparação utilizada para iniciar a fermentação do caldo de cana, etapa que antecedia a destilação.

Havia três tanques menores, talvez com cerca de quatro metros por sete e um metro de profundidade. Neles, a fermentação seguia suas diferentes fases. Recordo-me até hoje do cheiro forte, adocicado e inesquecível da cana fermentando. Para alguns poderia ser um cheiro desagradável; para mim, tornou-se a lembrança de uma experiência única.

Quando o caldo atingia o ponto, seguia para os alambiques de cobre. A aguardente saía pelo tubo de destilação ainda quente, transparente e muito forte. O sabor daquela bebida recém-destilada era marcante e inesquecível. Depois, ela seguia para os tonéis, onde deveria descansar e amadurecer.

O processo funcionava. A Canguara existia.

Surgiu, então, um novo desafio: para quem vender?

Era necessário legalizar a produção, obter licenças, criar um rótulo e organizar a comercialização. Essa etapa nunca foi superada por completo. Como acontecia muitas vezes nos empreendimentos daquela época, a energia era concentrada na obra, nas máquinas e na produção. A burocracia ficava para o final — e acabava se tornando justamente a parte que obstruía toda a missão.

O projeto permaneceu em espera. A produção continuou por algum tempo em caráter caseiro e experimental. Não sei dizer exatamente por quanto tempo, mas havia um volume de aguardente armazenado e, aos poucos, começou uma comercialização doméstica.

Nossa casa passou a ser visitada por inúmeros apreciadores do produto. Quase todos os dias aparecia alguém de carro, de bicicleta ou mesmo a pé, carregando um garrafão ou uma garrafa vazia para comprar a pinga.

Eu mesmo, muitas vezes, fazia o abastecimento dos recipientes.

Minha mãe não gostava nada daquela movimentação. Preocupava-se com a exposição da família e com o tipo de público que a venda de bebida poderia atrair. Para ela, aquele comércio doméstico estava muito longe de ser uma boa ideia.

Surpreendentemente, começaram também a aparecer alguns guardas rodoviários.

Eu vou explicar.

Naquele momento, o mercado da cachaça atravessava uma fase difícil. Um litro de pinga valia muito pouco, às vezes menos que um litro de água. As grandes marcas ainda não haviam elevado o prestígio do produto, e pouco se falava sobre a possibilidade de produzir álcool combustível em pequenas instalações.

Ao mesmo tempo, os problemas da produção começaram a aparecer. Um deles era o vinhoto, resíduo líquido resultante da destilação. Hoje sabemos que ele pode ser aproveitado, principalmente na fertirrigação, desde que manejado corretamente. Naquela época, entretanto, era visto apenas como um resíduo incômodo e potencialmente poluente. Formou-se no sítio um tanque de vinhoto, que permaneceu à espera de uma solução e gerou todo tipo de aborrecimento.

Havia também os custos do maquinário, da mão de obra e da lenha consumida pela fornalha. Já não me recordo com precisão de como era feito o acionamento da moenda, se por motor elétrico ou por algum sistema mecânico ligado ao processo. Lembro-me, porém, de que era necessário muito trabalho, muita gente e muitos recursos para manter tudo funcionando.

Todos os que ajudavam na produção pareciam gostar bastante do produto. Talvez gostassem até demais.

Foi então que os homens fardados apresentaram uma saída: transformar a aguardente em bebidas consideradas mais finas.

Meu pai foi a Piracicaba e comprou diversas receitas para a produção de uísque, conhaque e outros destilados feitos a partir da cachaça. Os guardas rodoviários conheciam o circuito de bares e casas noturnas e sabiam onde conseguir garrafas vazias de bebidas famosas. A ideia seria preparar as bebidas, colocá-las nessas garrafas e fazê-las circular como se fossem produtos originais.

O plano chegou a ser imaginado, mas nunca foi implantado. Meu pai recuou.

Felizmente.

A Canguara continuou seguindo seu próprio caminho. O sítio havia sido praticamente todo plantado com cana e preparava-se uma grande safra. Parecia que, finalmente, o empreendimento ganharia escala.

Foi então que aconteceu o inesperado.

Uma Kombi pertencente a um dos Padovani capotou em uma curva da estrada próxima ao sítio. O veículo pegou fogo, e as chamas alcançaram o canavial. O incêndio tomou grandes proporções e chegou a cercar a casa-sede.

Eu estava no sítio naquele domingo e acompanhei toda a ocorrência. Fomos até o local do acidente e encontramos o motorista ensanguentado, parado na estrada, assistindo à tragédia. Os bombeiros vieram da cidade, mas, naquela época, os recursos eram poucos e tudo era muito precário e improvisado.

A cana ainda não estava pronta para o corte. Todo o plantio foi perdido.

Como frequentemente acontecia com os grandes entusiasmos de meu pai, o impulso inicial começou a enfraquecer. O empreendimento foi perdendo força, enquanto sua atenção retornava às obras elétricas — atividade que conhecia bem e que sustentava nossa família.

O alambique permaneceu parado durante anos.

De tempos em tempos aparecia algum interessado, alguém apaixonado pela ideia de voltar a produzir o destilado. Aos poucos, porém, o estoque de aguardente foi diminuindo e os equipamentos começaram a ser vendidos.

Finalmente, prevaleceu a força da matriarca.

Para minha mãe, aquele capítulo precisava ser encerrado.

Apesar de tudo, foi uma experiência extraordinária. Produzir alguma coisa, acompanhar a matéria-prima entrando e ver um produto novo sair do outro lado é algo profundamente prazeroso. Talvez o empreendimento apenas tenha surgido antes de seu tempo.

Poucos anos depois, marcas como a Cachaça 51 e outras indústrias ajudaram a transformar o mercado nacional. A cachaça ganhou publicidade, distribuição e maior reconhecimento comercial. Se aquele conjunto tivesse permanecido inteiro e entrado em funcionamento mais tarde, sua história poderia ter sido diferente.

Hoje, um alambique como aquele teria grande valor histórico e turístico. Com as tecnologias atuais de aproveitamento dos resíduos e controle da produção, talvez fosse possível fabricar cachaça artesanal, álcool, fertilizantes ou outros derivados da cana. O vinhoto, que na época era somente um problema, poderia ser incorporado a um sistema de reaproveitamento.

A Canguara provavelmente não gerou lucros. Gerou custos, trabalho, preocupações e muitas experiências. Mas também ocupou o imaginário de um empreendedor que vivia em uma época na qual o Brasil parecia abrir caminhos para tudo e para todos os que estivessem dispostos a tentar.

Parabéns, senhor Luís, pela iniciativa.

Empreender é realmente uma grande aventura. O sucesso e o fracasso nem sempre dependem apenas do preparo e do planejamento. Dependem também do momento em que a ideia encontra o mundo. Acredito que muitas das deficiências daquele projeto poderiam ter sido superadas se o mercado tivesse amadurecido cinco anos antes.

Se o tempo do negócio tivesse coincidido com o tempo do empreendedor, talvez a história da Canguara tivesse sido outra.

Mas eu estava quase me esquecendo de contar justamente como surgiu o nome.

Meu pai encarregou dessa missão o poeta, músico e peão da família, seu tio, o senhor Homero Martins. Homem ligado às palavras, às modas e às histórias do campo, foi ele quem apresentou o nome:

Canguara.

Em seu uso regional, a palavra designava a cachaça ou aguardente de cana. Existem registros que relacionam sua origem a uma expressão indígena associada àquilo que “toma conta da cabeça”, numa evidente referência aos efeitos da bebida.

O nome era forte, brasileiro e apropriado. Trazia o som do campo, da cana, do alambique e das histórias contadas ao redor de um copo.

Assim nasceu e desapareceu a Canguara: uma aguardente que quase se tornou uma empresa, uma marca que quase chegou ao mercado e uma aventura que, mesmo sem deixar lucros, permaneceu guardada na memória da família Witzler.

Acredite se quiser.

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José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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