O Paradoxo de Stockdale e a Ilusão do “Tudo Vai Dar Certo”
Há um costume profundamente enraizado na cultura brasileira quase uma crença coletiva de que “Deus é brasileiro” e que, de algum modo misterioso, “no final tudo vai dar certo”.
Essa frase, aparentemente inofensiva, é mais do que otimismo: é uma forma de anestesia nacional. Um antídoto contra o medo do real, mas também um convite ao autoengano.
O brasileiro é um povo benevolente, criativo e incrivelmente resiliente. Sobrevive às crises, improvisa soluções, e, de algum modo, sempre encontra um jeito de seguir.
Mas talvez o preço dessa capacidade de adaptação seja o excesso de tolerância com o erro e a repetição.
Somos um povo que suporta tudo inclusive o que não precisaria suportar — em nome da crença de que o destino se resolverá sozinho.
O Paradoxo de Stockdale: fé lúcida em tempos de dor
Durante a Guerra do Vietnã, o almirante norte-americano James Stockdale foi prisioneiro de guerra por mais de sete anos.
Torturado, isolado e sem garantias, sobreviveu sem perder a sanidade porque sustentou duas verdades em equilíbrio:
a fé absoluta de que sairia vivo e o realismo brutal de que nada melhoraria tão cedo.
A esse equilíbrio de esperança e lucidez deu-se o nome de Paradoxo de Stockdale — o princípio de que devemos manter a fé no resultado final, mas encarar os fatos mais duros do presente com total honestidade.
O Brasil, no entanto, parece viver o oposto.
Temos fé, mas fugimos da realidade.
Preferimos o consolo ao enfrentamento, o alívio à correção, o milagre à reforma.
O positivismo que adormece
Desde o lema “Ordem e Progresso” até a expressão “vai dar certo”, herdamos um positivismo emocional que substitui a ação pela esperança.
Nos tornamos especialistas em esperar:
esperar o próximo governo, o próximo salvador, o próximo milagre econômico.
Essa fé no “amanhã melhor” é confortante, mas infantiliza.
Ela nos impede de perceber que a fé verdadeira não é fuga, mas força de ação.
A esperança genuína não ignora o caos — ela se move dentro dele.
🕊️ A fé simplista e o adiamento espiritual
Há ainda um componente religioso que reforça essa lógica: a crença de que “não somos deste mundo” e que o Reino de Deus será implantado em outro plano.
Tal compreensão, quando mal interpretada, se transforma em licença para a omissão.
A espiritualidade deixa de ser compromisso com o presente e vira consolo para o futuro.
Mas o Evangelho não propõe evasão: propõe encarnação.
O cristão é chamado a transformar o mundo em que vive, não a abandoná-lo.
Deus não pediu fuga, pediu fidelidade ao real.
O perigo da infantilização coletiva
Essa cultura de fé ingênua e otimismo cego tem um preço alto.
Transforma cidadãos em torcedores, e a sociedade em plateia.
Esperamos o messias político, o herói econômico, o juiz moral, o super-homem institucional.
Mas a esperança que aguarda um salvador é apenas desesperança disfarçada.
A maturidade espiritual e cívica começa quando entendemos que não há salvação coletiva sem responsabilidade individual.
O verdadeiro milagre não vem de fora ele nasce do despertar de dentro.
Fé lúcida, ação consciente
O Brasil não precisa abandonar sua fé, mas reeducá-la.
Precisamos de uma fé que pense, de um otimismo disciplinado, de uma esperança que saiba agir.
O Paradoxo de Stockdale nos ensina que é possível acreditar no bem e enfrentar o mal ao mesmo tempo.
O futuro não será obra do acaso, nem do messias que prometemos a nós mesmos.
Será fruto da coragem de encarar o presente, de romper o ciclo da espera e de agir com consciência.
“Deus é brasileiro?”
Talvez.
Mas o Brasil só será de Deus quando seus filhos se tornarem adultos espirituais, conscientes e responsáveis.

