“Torna-te quem és.”
Mas como serei eu mesmo? Como?
Essa pergunta atravessa silenciosamente a vida de quase todos. Muitos a respondem com esforço intelectual, outros com desempenho, carreira, acumulação ou reconhecimento externo. Ainda assim, a sensação de desencontro persiste. Como se algo essencial estivesse sempre fora de alcance.
Talvez a resposta não esteja em construir algo novo, mas em reconhecer algo antigo.
O início da jornada está em aceitar que o amor, em sua forma ativa, é a chave. Não como ideia abstrata, nem como sentimento idealizado, mas como prática cotidiana. Antes de perguntar quem sou, é preciso reconhecer que fomos feitos para amar — e que esse amor precisa de destinatários concretos.
E então surge a pergunta inevitável: amar quem?
Os próximos.
As pessoas que lhe são apresentadas no caminho do dia a dia.
Os encontros ordinários, não os extraordinários.
O cotidiano, não o distante.
São essas pessoas quaisquer que sejam o verdadeiro universo da autodescoberta. Não há necessidade de escolher grandes causas ou personagens idealizados. A vida já nos entrega, diariamente, o campo exato onde o amor pode ser exercido.
Ame da forma que for possível.
Às vezes amar será cuidar.
Outras vezes, apenas respeitar.
Em certos dias, suportar já será um gesto suficiente.
Mesmo assim, isso já é muito.
Quando o amor entra em ação, a vida ganha sentido de missão. O cotidiano deixa de ser repetição mecânica e passa a carregar propósito. Cada relação se torna um espaço de formação do ser.
Os seres humanos ao nosso redor vizinhos, familiares, amigos, conhecidos e até inimigos são, de certo modo, obras que nos foram confiadas. Não para moldar, controlar ou possuir, mas para cuidar. Somos todos curadores de grandes obras humanas. A curadoria não exige perfeição, apenas responsabilidade e presença.
É nesse exercício que nos tornamos quem somos. Não no isolamento, mas no vínculo. Não na teoria, mas na prática. Não no amor ideal, mas no possível.
Ao amar o que nos foi confiado, algo se revela. Aos poucos, o “eu” deixa de ser uma pergunta abstrata e passa a emergir como experiência vivida. E, nesse mesmo movimento, o sentido da vida e até a percepção de Deus deixa de ser distante e se aproxima da realidade concreta.
Talvez tornar-se quem se é não seja alcançar um ideal elevado, mas permanecer fiel a essa tarefa simples e exigente: amar aqueles que o caminho colocou diante de nós.
Isight/Jose Orlando Witzler

