O Termômetro e o Leme
Em tempos de eleição, os marqueteiros afinam seus ouvidos como maestros atentos às primeiras notas de uma orquestra descompassada. Olham gráficos, fazem pesquisas, medem a temperatura do povo — e invariavelmente, o termômetro aponta para o bolso. É ali que arde a febre da inquietação popular. O nome disso? Lei de Carville: “É a economia, estúpido!”. A alma do povo, reduzida a índices de inflação e saldo da conta no final do mês.
A política eleitoreira tornou-se meteorologia de curtíssimo prazo. Se chove desemprego, o discurso muda. Se esquenta o preço do arroz, o tom esfria. Os programas de governo dançam conforme o termômetro do momento, e o povo aprende a votar com o estômago, e não com o coração — muito menos com a consciência.
Mas aí, no meio do deserto de promessas econômicas, ecoa a voz de um homem que não se elegeu a nada, mas fundou um Reino:
“Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.” (Mateus 4:4)
Jesus, em seu realismo mais profundo, não negou o pão — multiplicou-o. Mas lembrou que a vida não cabe na padaria. E o ser humano não se resume ao seu extrato bancário. Esse é o ponto cego da política pragmática: ela se guia por termômetros, mas esquece o leme.
O cristão autêntico, ao contrário, não ignora o corpo, mas tem um olho na eternidade. Sabe que, se todos os discursos políticos terminam na prateleira do supermercado, algo está errado com o sistema. O bem-estar material é importante, claro — mas não é o fim. É meio. O fim é salvação, justiça, dignidade, verdade. O fim é Cristo.
Nesse sentido, a frase “tempo é dinheiro” — máxima do capitalismo performático — é desafiada por uma outra economia: a do Reino. Nela, o tempo é semente, é oração, é compaixão. E a alma não se vende na bolsa de valores nem no balcão dos votos.
Política sem transcendência é administração sem sentido. É contabilidade de almas famintas que se satisfazem com migalhas. O cristão, nesse cenário, não pode apenas medir a febre econômica. Ele deve lembrar que o verdadeiro termômetro da vida é a integridade da alma — e seu leme, a direção da cruz.

