O mal do dia
Afinal, que afetação é essa que nos aterroriza continuamente? Estamos no topo de nossa civilização. Conquistamos quase tudo.
A tecnologia e suas ferramentas já ultrapassaram em muitas nossas necessidades. Atualmente, nosso movimento está mais em um fluxo retardatário na utilização e aplicação dessas evoluções.
No entanto, por que tantos conflitos e não conformidades em nosso dia a dia? O que nos aborrece? Por que não conseguimos nos realizar plenamente e viver neste paraíso terrestre único, em nossa plenitude?
Em algum lugar está escrito que os tempos seriam encurtados, e isso seria o traciona dor da locomotiva de nosso tempo em passo acelerado à destruição.
Chegamos no tempo.
O que seria o tempo?
Como constataram os Maias, o tempo não existe. O que existe são fenômenos reais que ocorrem em ciclos, com espaços diferentes entre si. Conhecer o tempo seria a constatação desses fatos reais cíclicos que nos são observáveis.
Em consonância com todos esses ciclos, temos nosso ciclo biológico humano, percebido e constatado no corpo das mulheres a cada mudança de ciclo lunar. Portanto, observamos fatos reais em ciclos biológicos.
O tempo seria a constatação dos eventos e seus espaçamentos.
Nossa harmonia está em preencher esses espaços com atividades reais compatíveis com esse fluxo.
O que seria o caminhar, por exemplo? Podemos percorrer um determinado trajeto em um ciclo de noite e dia, nessa alternância. E assim, em uma sequência longa de ciclos diários, percorrer um grande trajeto. Seria um fato, constatado e medido.
E onde pode estar o descompasso?
No encurtamento do tempo.
Na verdade, não conseguimos alterar o tempo, ou mesmo interferir nele. Pois ele está estabelecido nos infinitos ciclos — micro e macro — do universo, que, por algum motivo inicial, recebeu um impulso que estabeleceu a motivação e operação desses ciclos concatenados e harmônicos do universo como um todo.
Nossa mente, nosso biológico, estão inseridos nesse grande ciclo. Não há como se descompassar desse grande baile do universo, chamado vida.
A vida não pertence a ninguém. Não é exclusividade do homem. A vida é o conjunto todo do universo. São os ciclos e ciclos interagindo de forma harmônica, como uma grande sinfonia regida pelo grande Criador e Maestro.
Portanto, ao desejarmos interferir no tempo — introduzindo elementos físicos reais em fluxo superior e descompassado com os ciclos da natureza — aí está a fonte do problema atual e da grande afetação.
Nossa mente não suporta alterações de ciclos.
Ao iluminarmos as noites, ao transformarmos o tempo em dinheiro, e considerarmos o juro composto na evolução e criação das riquezas monetárias, estabelecemos um traciona dor exponencial ao tempo, que não condiz com a natureza das coisas e suas regras.
Confundimos tudo. Transformamos leis em regras.
As leis nos obrigam a cumprir regras que não estão programadas com as regras da natureza.
A natureza não consegue produzir um ser humano em menos de nove meses. É uma regra. Não há lei que a altere.
No entanto, o tempo medido em horas e minutos, em descompasso com o ciclo natural, introduz o conceito de velocidade e aceleração do tempo — algo totalmente impossível e virtual.
A natureza tem suas regras e modelos. Replica continuamente seus fluxos, obedecendo sempre a padrões.
Aí entra o virtual: as imagens.
Em um filme conseguimos introduzir na cena mais imagens que o natural. Nosso cérebro não consegue assimilar diretamente. Somente o subconsciente, que é mais puro, assimila algo virtual e criado artificialmente.
Dessa forma, se imagina erradamente que houve uma alteração no tempo — que, de fato, não ocorreu.
O que de fato ocorre é a introdução de mais marcos de fatos em um espaço menor, portanto, ciclos aleatórios de eventos sucessivos.
Justamente esse mecanismo nos leva à perda da lucidez e à instabilidade mental, e transforma a vida atual em um grande frenesi rumo à constante lavagem cerebral.
Quando lavamos algo, utilizamos água. Lavar está relacionado a jogar água, e nessa água se diluem todas as referências, todas as marcas.
E o interessante é que os líquidos não têm memória estética.
Um líquido assume a forma de seu invólucro. Por exemplo, a água pode estar abrigada em um buraco disforme no chão, como pode estar contida em um lindo frasco de cristal transparente.
Pode assumir qualquer forma, sem memória. Sua ação é de incorporação de elementos físicos em sua composição — sendo uma água contaminada ou pura. Portanto, não estética.
Esta é a face da lavagem cerebral de nossos dias.
Nossas memórias se solubilizam na água e vão embora, não se sabe para onde.
E nos tornamos seres desmemoriados, sem passado e sem futuro — pois o presente necessita de referências.
O controle do tempo e a introdução da valoração do trabalho como medida simples e mecânica do tempo é um fator atrator de dissonâncias mentais.
Todo o nosso aborrecimento e desconforto vêm justamente desse processo mecanicista que introduz em nosso cotidiano atividades reais incompatíveis com o biológico humano.
Introduz uma realidade virtual imaginativa ao ciclo natural, real e universal que vivemos.
Esse descompasso possivelmente seja a catástrofe anunciada.
Sabemos que o movimento retilíneo de elementos físicos, quando empreendido em velocidades muito altas, deflagra uma curva de sequência catastrófica.
Seria isso.
Observemos a natureza, a troca das luas e os ciclos.
Vivamos o ciclo único de um dia.
Esta é a referência de tempo real que conseguimos medir.
José Orlando Witzler
05/05/2025

