O rio de aguas vivas.
José Orlando Witzler
(31/05/2025)
Eu fico imaginando a vida e seu fluxo inexorável,
que consome os nossos dias,
nos preparando para o futuro.
Para o amanhã que vem depois de hoje,
e o hoje que rapidamente se torna ontem.
E se fosse possível inverter o fluxo do relógio?
Se o amanhã se tornasse hoje,
e o hoje virasse ontem?
A vida seguindo um contrafluxo do tempo.
Como o peixe que sobe o rio.
Ou mais ainda:
como o rio que se consome e se esvai,
subindo do mar para a sua nascente.
No retorno, ele se aperta,
se espreme na realidade das bordas e limitações,
e vai se acomodando no leito contínuo e reverso.
Sim.
Como o homem preparado, pronto no final de sua jornada.
Aquele que acumula, em suas águas profundas
e possivelmente turvas
as experiências marcantes da travessia.
Na consciência e na inconsciência.
Afinal, venceu.
Conseguiu aprender muito.
Já é um homem sábio, poderoso, formado.
É neste ponto que recebe a visita do Anjo da Morte,
que o chama pelo nome.
E paradoxalmente, hoje, ele não foge ao chamado.
Talvez olhe para trás,
encontre o sentido
e ressignifique a jornada.
E absurdamente… retorna.
Já idoso, em um asilo ou leito de morte,
se recupera e fica saudável.
Pela força e vitalidade inesperadas,
é expulso do hospital.
Retorna ao trabalho.
Vai se tornando despreparado, irresponsável —
e é dispensado.
Na faculdade, se vê conhecedor de tudo.
Abusa dos professores e colegas —
e é expulso da faculdade.
E assim, sucessivamente,
segue um desajuste continuado.
De um adolescente precoce e tardio,
vai se tornando uma criança cada vez mais infantil.
Desaprende a andar.
Desaprende a comer sozinho.
Vai dando muito trabalho.
E assim retorna ao útero materno.
Protegido e seguro.
Mas ainda… não chegou.
Retorna à presença de sua criação:
à primeira célula.
Apenas uma célula.
Neste momento, um grande cataclisma.
Um orgasmo juvenil.
Dois amantes jovens, lindos, despreparados, apaixonados.
Na plenitude de seus corpos.
Possuídos pelo desejo e pelo prazer,
ainda não vividos.
De forma tensa, transgressora.
Em um ato roubado do destino,
totalmente irresponsável e, ainda assim, sagrado.
A alma ou as almas
se entrelaçam nesse enlace de matrimônio eterno.
E a vida acontece.
Vida e morte.
Para o peregrino,
é a jornada de retorno à plenitude:
a morte da vida física,
e o nascimento e retorno
à vida plena e eterna,
junto ao Criador.
E aquele casal apaixonado, amantes,
se preenche e se plenifica naquele instante maravilhoso,
onde a luz transpassa as duas almas.
Onde os fluxos opostos da vida física e biológica
e da vida espiritual e universal das almas…
se tocam.

