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O positivismo e o desencontro com o Brasil.

O positivismo e o desencontro com o Brasil

Quando importamos ideias e esquecemos o que somos

O positivismo chegou ao Brasil no final do século XIX como um modismo intelectual importado da Europa, embalado pelo prestígio da ciência, da razão técnica e da promessa de progresso linear. Era, naquele momento, uma filosofia em declínio em seu próprio berço, mas encontrou eco em parte da elite republicana brasileira, especialmente entre militares e círculos acadêmicos que buscavam um novo fundamento simbólico para o Estado recém-proclamado.

O problema não foi apenas a adoção do positivismo.
O problema foi a adoção acrítica, descolada da realidade histórica, cultural e espiritual do Brasil.

Um país que não nasceu cartesiano

O Brasil não nasceu da razão abstrata.
Nasceu do encontro caótico entre culturas, do improviso, da oralidade, da emoção, da fé, da música, da mestiçagem.

Somos um país:

  • De raízes africanas profundamente emocionais e espirituais,
  • De herança indígena marcada pela relação simbólica com a natureza,
  • De matriz ibérica carregada de religiosidade, imaginação e afetividade,
  • Multicultural, sincrético, quente — no clima e na alma.

Nada disso dialoga naturalmente com o positivismo clássico, que:

  • Desconfia da emoção,
  • Tenta reduzir a sociedade a leis quase mecânicas,
  • Prioriza a ordem como condição superior,
  • Trata o afeto como elemento privado, secundário ou até inconveniente.

Aplicar esse modelo ao Brasil foi como vestir um corpo tropical com um casaco intelectual europeu de inverno rigoroso.

A bandeira: símbolo máximo do desencontro

Esse desencontro atinge seu ponto mais simbólico na criação da bandeira republicana.

Ao substituir o brasão imperial, não se buscou traduzir a alma brasileira, mas sim afirmar uma ideologia de gabinete, formulada por um pequeno grupo de intelectuais profundamente influenciados por Auguste Comte.

O lema original do positivismo era claro:

“O amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim.”

A escolha de retirar conscientemente o termo “amor” não foi um acidente nem ignorância. Foi uma decisão racional, documentada e defendida.

E aqui reside o segundo erro — um erro sobre outro erro.

Retirar o amor de um país que vive de afetos

Se já era discutível importar uma filosofia sem raízes no Brasil, retirar o amor de sua principal expressão simbólica foi um equívoco ainda mais profundo.

O “amor” foi excluído sob o argumento de que seria:

  • Moral demais,
  • Subjetivo demais,
  • Inadequado a um símbolo de Estado.

Mas o Brasil nunca foi um país fundado apenas na objetividade do Estado.
O Brasil se sustenta:

  • No afeto,
  • Na relação,
  • Na empatia,
  • Na capacidade de convivência entre diferenças.

Retirar o amor da bandeira foi negar aquilo que nos mantém socialmente unidos, especialmente em um país marcado por desigualdades extremas e tensões históricas.

Ordem sem amor é controle

Progresso sem amor é exclusão

A história mostrou que:

  • Ordem sem amor facilmente se transforma em autoritarismo,
  • Progresso sem amor frequentemente produz crescimento econômico sem justiça social.

Talvez não seja coincidência que o Brasil tenha vivido:

  • Longos períodos de exclusão,
  • Modernização sem inclusão,
  • Desenvolvimento técnico dissociado de cuidado humano.

O símbolo não cria a realidade sozinho, mas educa o imaginário coletivo.

E o imaginário brasileiro foi educado, desde o nascimento da República, a olhar para a frente sem mencionar explicitamente o que deveria sustentar esse movimento: o amor.

A bandeira que poderíamos ter sido

Manter o “amor” na bandeira não teria sido ingenuidade.
Teria sido profundamente brasileiro.

Seria reconhecer que:

  • Nossa ordem precisa ser temperada por humanidade,
  • Nosso progresso precisa ser guiado por compaixão,
  • Nossa identidade nacional não cabe em fórmulas importadas.

A retirada do amor não foi apenas uma escolha estética ou filosófica.
Foi um ato simbólico de afastamento da própria alma do país.

Conclusão: talvez ainda haja tempo

Revisitar criticamente o positivismo não é negar a República.
É amadurecê-la.

Talvez o Brasil precise, mais de um século depois, reaprender a dizer aquilo que foi silenciado.
Não para apagar a história, mas para compreendê-la.

Porque um país que esquece o amor em seus símbolos
corre o risco de esquecê-lo também em suas práticas.

Referências históricas e conceituais

  • Raimundo Teixeira Mendes – Apreciação Filosófica sobre a Bandeira Nacional (1889)
  • Auguste Comte – Sistema de Política Positiva
  • José Murilo de Carvalho – A Formação das Almas
  • Lilia Moritz Schwarcz – As Barbas do Imperad
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José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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