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O homem que odiava muito.

O Homem que odiava.!

Por Jose Olavo Pimenta – 21/06/2025

“A vida não começa do zero — ela se replica. Como um fractal, ela evolui a partir do que já é, respeitando o modelo original. Só o espírito revolucionário ignora isso, tentando reiniciar o mundo onde a natureza apenas continua.”
Jose Olavo Pimenta

Outro dia, escutei uma frase que me ficou rondando a mente:
“Fulano odeia muito.”

Esse tipo de ódio — repetido em tom moral, como quem diz “ele está do lado certo da história” — é mais que uma emoção. É um sintoma profundo de algo que vai além do desgosto por situações do mundo. Trata-se de um verniz ideológico: uma camada rígida e brilhante que reveste a consciência e a impermeabiliza contra qualquer nova interpretação, fato ou correção.

Esse verniz adere à alma como uma certeza absoluta. O sujeito “que odeia” não apenas acredita que está certo: tem convicção inabalável de que sua ideia — e só ela — é capaz de corrigir todos os desvios da sociedade. O resultado é uma postura prepotente e inflexível, que não se abre ao diálogo, não acolhe o contraditório, não reconhece a complexidade da realidade.

O problema não está em desejar mudanças — isso é legítimo. O problema está na ânsia de destruição que se disfarça de justiça. Em vez de propor melhorias baseadas na escuta e no aprendizado acumulado, esse espírito se move por ruptura, deslegitima o passado, e busca um recomeço total, como se fosse possível apagar a história com uma ideologia.

Esse tipo de mentalidade — que já se manifestou em tantas revoluções ao longo do século XX — é o que chamo aqui de espírito revolucionário destrutivo. Ele não quer apenas reformar o mundo: quer reiniciá-lo a partir do nada, como se a natureza humana e social fosse matéria moldável à força de slogans.

Grandes momentos de ruptura política, como a Revolução Bolchevique, servem como símbolos históricos desse espírito. Não foram apenas tentativas de mudança política, mas projetos radicais de reinvenção do homem, de sua cultura, sua moral, sua espiritualidade.

Mas a vida — assim como a natureza — não opera por negação, e sim por integração.

A natureza não apaga suas raízes para crescer. As espécies não se autodestroem para recomeçar — elas se adaptam. As culturas vivas não renegam seus ancestrais — as homenageiam enquanto os superam.

A ideia de que se pode “zerar” uma civilização e reconstruí-la com base em um ideal abstrato é antibiológica, antinatural e, quase sempre, cruel. É por isso que revoluções radicais costumam trazer, junto com seus discursos grandiosos, uma trilha de sofrimento, perseguições, exclusões e fracassos.

É fundamental reconhecer que o processo revolucionário, antes de ser uma ideologia específica, é um método. Um modo de agir e pensar que se aplica no indivíduo e se replica no coletivo, criando um padrão de ruptura sucessiva. Ele se alastra como um modelo de reorganização total, onde tudo o que existe precisa ser derrubado para dar lugar ao novo.

E aqui reside uma ironia profunda: embora a proposta revolucionária fira os princípios naturais da vida, negando o acúmulo, a ancestralidade, a continuidade, seu modo de propagação obedece curiosamente à lógica fractal da natureza.

Como os galhos de uma árvore ou os padrões de um floco de neve, a revolução se espalha por repetição de estruturas, por células replicadas, por micromodelos ideológicos que se multiplicam. Esse traço formal — a mimetização da forma orgânica — talvez explique o encanto e o sucesso do método, mesmo que seu conteúdo seja profundamente antinatural.

É esse o paradoxo: a forma fractal sustenta um conteúdo destrutivo. A metodologia segue um modelo natural; a proposta, não.

Assim, o erro não está apenas no que se quer mudar, mas na maneira como se pretende mudar tudo ao mesmo tempo, com base na ideia de que o passado é um peso, e não um solo.

O que precisamos, diante das imperfeições do mundo, não é de destruição — mas de transformação prudente. De crítica sem ódio. De escuta sem fanatismo. De ação com respeito às raízes que nos sustentam.

Como dizia Edmund Burke, “um Estado que não tem meios de conservar não tem meios de mudar com sabedoria.” E G.K. Chesterton, por sua vez, via a tradição como “a democracia dos mortos”, uma forma de garantir que a sabedoria de quem veio antes continue influenciando os caminhos do presente.

Talvez, então, a missão do nosso tempo seja justamente essa:
reabilitar a escuta, a humildade e a reforma serena, diante da tentação fácil da ruptura violenta.

Você não precisa tomar uma Coca-Cola — mas também não precisa odiá-la.
Talvez esteja apenas projetando no mundo o que ainda não resolveu dentro de si.

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José Orlando Witzler
José Orlando Witzler
Eu sou eu . Você é você . Eu só consigo ser eu se você for você. Você só conseguira ser você se eu for eu. Ai nós conseguimos conversar. Esta é a intensão deste trabalho. Jose Orlando Witzler. Geração 1961. Engenheiro. Empresário. Pai de família. Observando solitariamente de um farol distante. Sinalizando por este humilde blog.

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