O Manual que Não Existe
Já não dá mais para nem tentar entender, pois o piloto sumiu da cabine, o manual de operação não foi editado, seguir com o voo é a missão.
Vivemos num tempo em que as coisas acontecem antes de termos nomes para elas. Enquanto ainda tentamos compreender o impacto da última grande inovação, três outras já se instalaram silenciosamente em nossas rotinas. Há quem acredite que se trata apenas de modernidade acelerada; outros suspeitam que estamos, de fato, num novo plano social hiperconectado, desterritorializado e difícil de interpretar.
O curioso é que a humanidade sempre produziu pensadores que tentaram escrever manualizações parciais do mundo. Auguste Comte descreveu a sociedade como um organismo, mas não imaginava a existência de redes digitais aproximando bilhões de indivíduos num mesmo “campo nervoso”. Durkheim analisou a consciência coletiva, mas não conviveu com plataformas capazes de sincronizar sentimentos em escala global em poucos segundos. Pierre Lévy vislumbrou uma inteligência coletiva, sem prever como algoritmos modulam essa inteligência em tempo real. Edgar Morin argumentou sobre a necessidade do pensamento complexo, justamente porque a realidade já escapava dos modelos simplificadores. Manuel Castells observou que a sociedade não se organiza mais pelo território, e sim pelos fluxos de informação.
Cada um escreveu um capítulo do manual e nenhum conseguiu atualizá-lo a tempo.
Não é que faltaram boas teorias; falta estabilidade para que qualquer teoria consiga fixar. É como tentar escrever instruções de uso de um avião enquanto ele se reconstrói durante o voo, mudando asas, motores e cockpit sem autorização prévia. Quando finalmente entendemos uma parte do funcionamento, ela já se tornou obsoleta.
Hoje não temos sequer a ilusão de que exista um manual. Os aparelhos vêm sem, os aplicativos atualizam sozinhos, e a própria vida social não cabe em instruções. A tecnologia se tornou tão ampla que já não se explica — apenas se utiliza. O cotidiano é mais complexo do que qualquer pedagogia possível. E o voo prossegue.
Talvez o ponto não seja compreender tudo, mas aceitar que sempre haverá um grau de opacidade. Talvez o piloto nunca tenha existido ou talvez sempre tenha sido coletivo. Talvez existam formas de sentido que ainda não temos instrumentos para nomear. Talvez seja cedo demais para teorizar e tarde demais para parar.
Só sei dizer que é assim, não sei os porquês.

