O Amor que Permite.
A Cruz como Chave Para a Liberdade Humana
Há uma ideia que atravessa muitas experiências religiosas: a crença de que tudo o que acontece em nossa vida foi planejado, decidido e dirigido por Deus nos mínimos detalhes. Que cada acontecimento, desde o mais belo até o mais cruel, corresponderia a um roteiro perfeito escrito pelo Criador.
Essa visão parece oferecer segurança mas, ao mesmo tempo, coloca Deus diante de um problema moral profundo: se tudo é plano, então o mal também seria plano. E, se o mal é plano, o amor deixa de ser amor para se tornar controle.
Mas a cruz de Jesus nos conta outra história.
A cruz não é a imagem de um Deus que controla.
A cruz é a imagem de um Deus que ama ao ponto de não controlar.
Jesus não foi pendurado na cruz porque Deus desejava a violência.
Ele foi pendurado porque o amor não cancela a liberdade humana,
e a liberdade humana pode ferir, pode negar, pode trair, pode crucificar.
A cruz é o lugar onde o amor permite.
Não porque Deus se ausenta, mas porque Deus confia.
Confia que o amor é maior do que o mal.
Confia que a luz é mais profunda do que qualquer sombra.
Confia que o coração humano, mesmo ferido, pode aprender a amar de volta.
E aqui está um ponto essencial:
Deus não deseja a crueldade.
Mas Ele a permite para preservar a liberdade.
Se Deus tivesse impedido a cruz, teria impedido também a liberdade dos homens de escolherem.
E, sem liberdade, o amor deixa de ser encontro e passa a ser programação.
O amor de Deus não nos empurra, não nos força, não nos obriga.
Ele convida.
Esse Deus, revelado na suavidade firme de Jesus, não escreve a vida em nosso lugar.
Ele caminha conosco enquanto escrevemos.
Ele sustenta sem substituir.
Ele ilumina sem empurrar.
Ele inspira sem dominar.
Nós não somos bonecos em um teatro divino.
Nós somos filhos e filhos aprendem caminhando.
Por isso, ao contrário da espiritualidade infantil que diz:
“Deus planejou tudo. Basta esperar.”
A maturidade espiritual reconhece:
Deus ama tudo.
Mas entrega parte ao nosso cuidado.
E confia que seremos capazes de amar também.
Deus não quer que soframos.
Mas Ele permite que vivamos a realidade da vida com suas luzes e sombras —
porque acredita que é assim que nos tornamos verdadeiros.
A fé adulta é a fé que olha para a cruz e entende:
Amar é permitir.
E permitir é confiar.
O amor de Deus é tão grande que Ele não retira nossa liberdade,
mesmo sabendo que podemos errar.
Porque Ele sabe e confia que podemos amar.
E quando amamos, algo da nossa origem se revela:
Somos filhos daquele que é Amor.
E, no amor, lembramos quem somos.
Pauta/pesquisa/insght/Jose Orlando Witzler

